quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

...Sim!... Duplo, se faz favor...-

Por Charlie

 


Gostava de olhar a forma como ela distraidamente puxava a alça do vestido, primeiro com o dedo indicador, fazendo depois deslizar o polegar junto à pele. Docemente até ao interior de encontro ao rebordo do soutien, repetia o gesto devagar para depois olhar para o lado enquanto a mão de forma instintiva ajeitava o cabelo junto à orelha
O meu copo, onde umas pedras de gelo estalavam sob uma nova dose de bebida acabada de servir, pareceu-me de repente a fronteira dum intruso escondido algures por debaixo da pequena mesa desde onde espreitaria, impune através do vidro, seguro da sua invisibilidade.
- Sabes?...- disse-lhe. –Há quanto tempo desejava estes momentos. Poder sair contigo e apresentar-me ao mundo ao teu lado. Sem receios de sermos vistos e denunciados. Poder dizer: amamo-nos! Aqui estamos! Vejam, olhem para nós!... -
Um silêncio sobreveio.
- Não estás feliz? - Perguntei-lhe com um sorriso no rosto perante o silêncio que obtivera como resposta. Bebi um pouco enquanto olhava para ela que me evitava o olhar. O meu a percorrer aqueles traços de corpo que por melhor que me parecia conhecer, mais e mais me faziam despertar para a eterna descoberta.
Pela primeira vez em muito tempo, contudo, voltei a ser tomado por aquela sensação que desde que a conhecera se esfumara do meu léxico emocional.
Fiquei olhando longamente para ela, molhando os lábios, lendo as linhas do seu desconforto.
Já dobrado o cabo dos cinquenta, conhecia por demais as pessoas para me iludir fosse com o que fosse. Por muito que estivesse enebriado por ter na minha vida aquela mulher que conhecera sem saber como, - ela à beira do divórcio, - numa relação secreta sempre em crescendo que terminara com o meu casamento de décadas, o seu desviar do olhar despertou-me um incontornável sinal de alarme:
- O que se passa? Podes dizer-me?-
Pôs-me as mãos nas minhas que senti ligeiramente frias e húmidas.
- Sabes...estou para dizer-te isto há já algum tempo.
- Mas o que se passa? – adiantei, quase com um nó na garganta,
- Conheci-te, - disse ela,- numa circunstância tão especial, estava tão carente de afectos, de tal forma náufraga e necessitada duma tábua de salvação... Tu foste tudo isso para mim. Foi contigo que me reencontrei, que reabri os horizontes, que me senti novamente na senda do meu destino. Mas agora...
- Agora...!?- atalhei quase num grito a custo dominado, - Agora o quê?..., - as palavras de voz já mais contida, pesasse embora o embargo e a dificuldade em engolir.
Segurou as duas mãos de dedos unidos em frente aos olhos fechados como se repentinamente estivesse em oração. Depois baixando os braços, fixou o meu olhar e continuou:
- Sei o que te vai custar isto, mas tenho que dizer-te: não quero viver novamente num engano, nem enganar-te. A minha vida era uma prisão. Tu foste muito importante, mas apenas porque eu estava carente, com falta de autoestima, desesperada, sei lá... Mas agora... agora que volto a sentir pela primeira vez em tantos anos a leveza da liberdade... Não quero mais prisões, entendes? Antes que seja mais tarde...que doa mais, a ti e a mim...Desculpa-me se um dia puderes...-
Levantou-se e, sem mais uma palavra, retirou-se.
Fiquei olhando para o seu corpo que se afastava enquanto ajeitava as alças que horas antes eu ajudara a saltar sobre os ombros, primeiro um e depois o outro. Como tantas vezes fizera, ela em frente ao espelho, eu por trás, mestre quase invisível que lhe inventava o corpo em gestos de magia, que já nu se fundia na nudez do meu num abraço intenso a derramar-se sobre a cama onde naufragávamos, como tantas vezes fizéramos, em lábios e corpos fluindo no mar comum que era o nosso...
Bebi o copo todo de uma vez, detendo as pedras de gelo num encontro frio junto à boca enquanto os olhos fechados não conseguiram conter o calor e sal dumas patéticas lágrimas.
Pousei o copo e levantei o braço: - Faça favor, - disse quase surdamente perante o assentimento expresso no olhar e aceno de cabeça do barman.
– Traga outro...
Sim!...Duplo, se faz favor... -


sábado, 7 de janeiro de 2012

O Julgamento




Com um finar de martelo culminou a sentença que em voz monocórdica e olhando para ele como se fosse transparente, ditara. As últimas frases, mais: os últimos parágrafos, haviam-lhe soado em surdina, de tal forma o desfecho previsível e desfavorável se ia compondo como resultado do julgamento onde todas as testemunhas, uma após outra, tinham colaborado para o desmontar do seu argumento de defesa. Um leve burburinho elevou-se discretamente na sala enquanto os papeis se guardavam nas pastas e vozes imperceptíveis se trocavam entre os agentes de justiça.
Rodando o corpo para trás, de forma a ficar bem de frente para cada uma delas, fitou as testemunhas, uma após outra. Em vão procurou os seus olhares que preventivamente se distraiam pela sala, chão, tecto, adereços e outros olhares, evitando de forma ostensiva o seu.
Agora que o momento passara, distendendo a tensão com alívio para uns, mas com a morte na alma para ele, via nitidamente em cada um dos rostos a personificação dos sete pecados capitais.
A gula pensou ele, ao olhar para um dos que sabendo a verdade, tinham alterado os factos de forma a comprometê-lo. Fácil de comprar, pensou: bastaria uma boa jantarada ou duas ou uma saída à noite. Depois olhou para o outro, por sinal ainda aparentado. Magro, de óculos finos e fato austero era a imagem da avareza. Este teria sido quiçá o mais fácil de comprar. Uma leve sugestão de despesa extra se o caso tivesse tido um desfecho a seu favor, acrescentado talvez de alguma vantagem se fosse condenado.
Depois olhou para ela, a invejosa. Desde criança que fora assim. Essa também não seria difícil de convencer, estava convencida à partida. Desde eu ficasse mal, mesmo que ela não beneficiasse coisa alguma.
Passou depois o olhar para outra. A ira: uma pessoa má. Não tinha amigos, de tal forma era rancoroso, incapaz de perdoar a mínima falha alheia. Sempre disposto a desenterrar antigos diferendos, mesmo que estes não tivessem qualquer importância ou que esta se tivesse esgotado pelo passar do tempo. Sim! Com este teria sido também muito fácil pois nos encontros e rodas de amigos há já muito acontecidos, ele levara-o a melhor nos argumentos, coisa que o aborrecera profundamente e tinha levado a afastar-se.
A seguinte era a soberba em pessoa. Pensou um pouco mais demorado como teria sido possível comprar aquela testemunha, convence-la a dizer algo que sabia não ter acontecido, mas depois fez-se lhe luz. Também aqui a palavra aplicada no registo certo teria espoletado a característica-chave da sua personalidade. Algo do tipo: - ele anda a denegrir o teu trabalho, diz isto ou aquilo-... Sendo artista e extrovertido e não cabendo em si pela falta de humildade, uma frase teria bastado, o resto seria questão de cozinhado.
De propósito saltou o sexto pecado, guardando-o para o fim, enquanto se deteve no elemento que personificava a preguiça. Detestava-o e dissera-lhe isso mesmo por mais de uma vez. Incapaz de dar uma ajuda a alguém, ficava a olhar, aparentemente alheio, sempre que alguma colaboração lhe era pedida. Mesmo se alguém estivesse aflito a precisar de uma mão, jamais se disponibilizara a dar uma ajuda. Ele sabia que  nunca poderia ter estado naquele sítio, pois vira-o entrar para casa dela, cruzara-se com todos eles, os anteriores, quando tinha ido ter com ela, essa que de propósito guardara para o fim: a luxúria. Meu Deus! Como ela era fogo na cama. De todas as vezes que subira aquelas escadas, ele, agora condenado,cumprimentara-o, ao preguiçoso, com uma tirada jocosa, ao que ele ruminara algo vago do tipo:-vai-te lixar….-, mas ela…ela. Meu Deus! repetiu de novo dizendo-o inconscientemente em voz alta. Veio-lhe à memória como se fosse um só momento, todos os instantes, desde o abrir da porta, dos lábios sôfregos e mãos infinitas e dos seus corpos a explodir e morrer um no outro, e ainda, a efervescente forma de como se tinham conhecido…mas agora...?
Condenado a vinte e cinco anos, a indemnizar com a incontornável perda de bens por falta de recursos suficientes, ia perder, além de todos os meios de fortuna, toda a vida social e profissional. Os amigos, até mesmo os mais verdadeiros, iriam um após outro rareando as visitas até ficar completamente entregue a si mesmo, à sua revolta e solidão. A família, pouca e distante fora a primeira a afastar-se.
Mas porquê?, interrogava-se uma e outra vez…
Um coração acelerado e alimentado pela angústia e revolta surda não lhe davam outra resposta que não as gotas de suor frio que lhe humedeciam a testa.
Naquele momento, em que todo o céu desabara sobre si, confuso e demasiado próximo dos acontecimentos, não conseguia descortinar uma razão válida ou um motivo por mais leve que fosse para que tivesse sido condenado por um crime que não cometera. Sem dúvida que algumas implicações circunstanciais o poderiam ter indiciado, mas bastaria a palavra honesta das testemunhas para que ficasse de forma cabal inocentado. No entanto…
Fechou os olhos, e por uns momentos reviveu o fogo da paixão dessa cujo testemunho fora determinante para a sua condenação. Luxúria, luxúria!!! Paixão... e depois... Deu-se conta como passava da sensação de agrado para a desolação e a raiva impotente e como o suor lhe empapava desconfortavelmente as axilas e lhe escorria pelo couro cabeludo até ao colarinho, e como mais abaixo uma impressão de molhado denunciava as virilhas invadindo igualmente as roupas íntimas pelo fluido orgânico.
Um abanar do corpo fe-lo querer abrir os olhos, em natural reacção, mas surpreendentemente reparou como não conseguia. Seriam os funcionários da presidiária talvez, diligentes em dar corpo à decisão judicial, mas a luz apagara-se, sentia-se ainda mais confuso e debalde tentara dizer uma simples palavra.
-Acorde! Ouviu ele distante enquanto esperava que os guardas o levassem para o cumprimento da pena. Apenas um -“Ãah? “- atordoado saiu-lhe como vaga resposta.
-Acorde, está na hora de tomar os medicamentos. Esteve toda a noite com febre alta e pesadelos. …..- ouviu ele agora já de olhos abertos para aquela voz feminina, que momentos antes estivera sem a farda de enfermeira a incendiar-lhe os sonhos....
- Fartou-se de falar, senhor dr Juiz....

terça-feira, 24 de maio de 2011

Zabiba


ZABIBA
uva passa










Zabiba trouxe o cântaro cheio de água para a tenda.
A distância entre a nascente e o acampamento era de pouco mais de cem metros, que ela fez com algum esforço.
Embora o parco vento soprasse ainda com apontamentos da frescura da noite, o sol acabado de nascer com menos de uma hora de reinado, mostrava já a inclemência da sua realeza.
Zabiba jamais havia visto mais que poços e nascentes.
Agora com doze anos e aproximando-se a idade em que se tornaria mulher perguntou à mãe:
- É verdade, mãe que há sítios onde a água é tanta que forma extensões assim grandes como este Sahara que Allah quis que fosse a nossa casa?-
A mãe olhou para ela com um olhar mortiço e cansado de anos a fio de heróica resistência ao deserto.
O pensamento levou-a para longe. Enquanto preparava o chá, que é um ritual de horas nos povos do deserto, - a primeira chávena bebida amarga como a vida, a segunda quente como o amor e a última, doce como a morte, - deambulou pelos tempos idos. Vieram-lhe à memória os dias em que conhecera o seu marido. Ela fora a sua primeira esposa. E após dois anos do que lhe pareceram ser de felicidade, um parto difícil seguido da morte da criança tinha-lhe trazido uma esterilidade quase absoluta. O marido tinha arranjado mais duas esposas, habilmente negociadas em trocas de ovelhas e camelos. Devido à sua esterilidade o marido procurava-a com muito menos frequência. Mas quisera Allah dar-lhe a graça duma filha quando não esperava já nada da vida.
- Zabiba !- Pôs-lhe o pai de imediato como metáfora ao milagre do fruto nascido duma mãe seca.
A água já estava a ferver mas Zulmira estava tão absorvida em pensamentos que não deu por isso.

Zabiba chamou a mãe.

- Mãe, tens de passar a água. Já está a ferver...e diz-me....-
- Ghaniyah! - disse a mãe despertando do sonho. E Zabiba deu meia volta dançando sobre si mesma. E rindo-se abaixou-se outra vez e disse.
- Já dancei. Agora diz-me se é verdade...-
Zulmira olhou para a filha. Nunca havia visto mais água do que a que se pode observar nos tempo das chuvas, mas o seu homem já estivera em Timbuktu, onde passa o rio Niger. Em pleno deserto há milénios que existe uma cidade que chegou a ser considerada lendária pelos próprios povos do deserto. Ela também nunca havia visto mais água do que aquela que escorre efemeramente pelos Wadis nas alturas em que chove e isso já havia sido há muito ainda Zabiba era pequena.

- Sim - disse .- Há um sítio onde a água é abundante como a areia que nos envolve. Toda a água da chuva corre para o paraíso. Lá há plantas de todos os tipos, muito maiores que as ervas e arbustos que as nossas ovelhas comem. Do tamanho das palmeiras nos oásis mas muito diferentes delas e muito verdes. É onde vive Allah e as pessoas em seu louvor fizeram arranjos com as plantas e construíram jardins. A água é tanta que as pessoas atiram-se para dentro dela lavando a alma e purificando o corpo.
A frescura está sempre presente e os homens amam as mulheres.....-

Calou-se de repente enquanto o seu olhar se perdia novamente no esfumar dos sonhos.
Depois repetiu só para si;

-.....Onde os homens amam as mulheres...-


Foto:C. Deo



Charlie

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Ata.


Texto decifrado entre as nervuras das rochas nas cavernas da invenção da memória


Ata olhou uma vez mais para o vulto que a noite absorvia, com uma quase sofreguidão, à medida que ele se afastava, caminhando um pouco destacado do grupo de homens.
Na caverna, de repente tornada enorme, os restantes membros da tribo ajeitavam-se em redor dos restos das fogueiras projectando efémeras e grotescas sombras pelas paredes. Enormes e assustadores espíritos emergindo de impensáveis ancestralidades, eternos e intemporais...

Org voltou-se fitando o olhar de Ata por um breve instante antes de sumir-se na escuridão que uma lua cheia prestes a romper o horizonte ainda não iluminava.
Iam para a caçada. Preparar as armadilhas para onde encaminhavam as peças a
abater em salvas de flechas e machadadas.
Todas as luas eles saíam passando vários dias e noites fora. Regressavam depois com a carne que a seguir elas, as mulheres, tratavam e preparavam nas fogueiras.
Inspirou fundo e olhou mais uma vez para Cuítsh. Era jóvem, tão jovem quanto
ela e por isso ainda não ia ás caçadas.
Org tinha-a trazido para ali trocando-a por outras mulheres da sua própria tribo como de resto era hábito no vale onde ela tinha nascido.
Chegara um dia ao acampamento onde vivera sempre com os pais. Com ele tantas mulheres como dedos tinha numa mão e após longa discussão e entrega de objectos e amuletos de parte a parte, sentiu-se de repente no meio do grupo juntamente com mais quatro
moças que com ela tinham crescido.
Quase de imediato Org pegara-lhe no braço e pelo cabelo rindo-se enquanto em agitação e no meio das lágrimas e gritos ela olhara numa súplica para a sua mãe que lhe acenara sem expressão alguma no rosto. O coração batera-lhe com violência e ao início, durante dias a fio, chorara no fundo da caverna sem comer nem beber nem, ao menos, levantar os olhos de entre os braços onde mergulhara a cabeça.

Org era um homem bastante mais velho. Chegara por ferozes disputas a chefe da
tribo e apresentava o corpo coberto de cicatrizes.
Brusco e dominador, não se lhe conheciam filhos.
Havia experimentado muitas mulheres, mantinha ainda algumas mas nunca alguma
lhe dera descendência.
Agora porém, desta vez, estava exultante.
Ata começara a mudar as formas do seu abdómen, tinha outro cheiro, e Org não
cabia em si de contente.
Nas últimas luas tinha aumentado a quantidade de caça trazida.
Presenteava-a com as melhores partes das peças abatidas, saía para trazer-lhe frutos de cheiro e sabores doces e preparara-lhe agora um recanto com peles e penas confortáveis.

Ata suspirou mais uma vez e olhou para Cuítsh, disfarçando um curto sinal por
entre as expressões veladas do rosto...

A lua enchia agora todo o vale a seus pés.
Bem lá ao fundo, por entre ramos da vegetação algo rasteira via-se por uma nesga a entrada da caverna.
Abrigados numa dobra do terreno e deitados ao lado um do outro no que restava dum abraço, Cuítsh e Ata, de corpos gratos e suados, miravam o infinito sob o céu estrelado, enquanto ela de mão sobre o ventre, afagava o Neolítico em suaves passagens de Eternidade e poesia...

Charlie

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Folha do Diário dum Soldado,

No momento em que escrevo estas linhas, corro o risco sério duma punição ou mesmo de ser abatido pelo inimigo. Tenho que estar atento, e escrever é uma coisa que distrai a atenção.
São quatro da manhã e há uma meia hora que entrei neste turno de sentinela.
No entanto, durante toda a noite, não consegui ainda conciliar um só momento de sono.
À minha frente apenas vejo uns olhos azuis que me perseguem por todo o lado. São iguais ao da Marlene, a minha namorada, com quem casei duas semanas antes de ser enviado para a frente e entrar em combate.

Acabei de fazer uma pequena pausa para perscrutar a escuridão que uma lua em quarto minguante por trás dum céu em farrapos de nuvens negras mal consegue iluminar. Pareceu-me ter ouvido um ruído, mas afinal, era apenas um mocho que após ter capturado a presa, passou a rasar o meu capacete rumo à mata na colina à nossa retaguarda.

Esta manhã recebemos ordens para avançar em direcção às trincheiras que agora ocupamos. Durante o avanço tínhamos que tomar um ninho de metralhadoras que estava instalada no topo duma pequena elevação do terreno a partir de onde dominava todo o vale. Uma cobertura de fogo de morteiro abriria o passo ao nosso avanço.
Felizmente conseguimos a nova posição com poucas baixas.
Após a relativamente rápida tomada do ponto, a fustigação das trincheiras adversárias fizeram os restantes bater em retirada, o que facilitou o assalto final às suas posições.
O meu pelotão ficou encarregue de fazer a limpeza do terreno, capturando armamento, neutralizando elementos inimigos, detendo-os com ordens de serem abatidos em caso de resistência.
No ninho, constituído por uma pequena escavação a meia altura, rodeado de sacos de areia e pedras, apenas havia umas caixas de munição espalhadas, duas peças pesadas caídas assim como algumas ligeiras. Num dos lados, estava um corpo despedaçado; um dos morteiros tinha atingido quase em cheio o seu alvo e os sacos estavam parcialmente deslocados e rebentados com o conteúdo espalhado em seu redor.
Reparei contudo como no chão, mole devido à chuva miudinha que caíra na noite anterior, umas pegadas de botas levavam a direcção do bosque na encosta que agora fica por trás das nossas linhas. Segui as marcas no solo e, ainda antes de entrar no arvoredo, umas manchas de sangue num arbusto certificaram-me de que estava ferido. Talvez devido a estilhaços aquando da queda do morteiro que atingira o seu camarada. Ou talvez ainda antes, atingido por um projéctil e na iminência da sorte do combate lhe ser desfavorável, tivessem feito com que ele se retirasse na esperança de atingir um local onde se sentisse em segurança.
Avancei com cautelas, a adrenalina a ferver nas veias, abrigando-me em cada lance.
Foi quando inesperadamente o vi. Quase de caras.
Senti o sangue gelar.
Imóvel e encostado a um tronco, debilitado, estava como que esperando por mim. Nem dera quase por ele, poderia perfeitamente ter-me abatido, mas não...
Por detrás duma expressão assustada, de olhos azuis e cabelo louro com laivos negros tal como os de Marlene, estava o que era ainda um rapazinho. - Certamente um voluntário. - pensei. Apresentava um ar de cansaço e segurava a arma apontada na minha direcção com as duas mãos junto à cintura e a coronha apoiada na árvore onde se encostara. Ordenou-me para largar a minha. Respondi-lhe que estava detido, que as nossas forças tinham tomado as suas posições e que agora era meu prisioneiro.
Umas lágrimas espreitaram-lhe aos olhos, ao mesmo tempo que denunciava na inspiração o tremor que lhe tomava o corpo. Por um momento senti um alívio da pressão quando ele abaixou a metralhadora e o olhar num gesto que me pareceu de rendição.
Avancei e foi então quando se deu o desenlace. Dando-se conta de que me aproximava, levantou novamente a cabeça e voltou a apontar a arma, abrindo muito os olhos enquanto subia os braços para uma posição de ponto de mira e de dedo no gatilho. A boca a abrir-se como ao ponto de gritar algo.


Há ocasiões, como esta que sinto agora, em que tudo faríamos para alterar os rumos dos acontecimentos, invertendo-os até muitas vezes, mas naquele instante de tensão em que um momento tem o tamanho do infinito, mas é em simultâneo o infinitésimo que nos separa a vida da morte, venceu a besta. Toda a subtileza dum pensamento, toda a beleza dum poema, apenas o são se perpetuados no conhecimento contínuo, no estado de consciência, na memória de tudo e de nós mesmos, acrescentados em todos os instantes de estar vivo; sobreviver...


Premi instintivamente o indicador. O estampido soado a um menos dum metro de mim atingiu-o em cheio no peito, fazendo-o encostar-se à árvore pela qual escorregou caindo depois para um dos lados. Corri para ele, confesso que desorientado, surpreendido comigo próprio.
Apoiei lhe a cabeça contra mim enquanto, sem saber porquê, lhe dei um pouco da água do meu cantil que apenas molharam os lábios
Já tinha abatido inimigos, já tinha visto morrer camaradas mesmo ao meu lado, eu próprio apresentava umas cicatrizes de estilhaços, curadas mal e porcamente nas trincheiras à base de penicilina, mas nunca tinha passado um episódio que tivesse mexido tanto comigo.
Vi como ele chorava e chorei também. Numa voz quase sussurrada disse:
- Só não queria ser capturado....Para a semana....Para a semana...vou de licença...Há tanto tempo que não vejo os meus pais,....a minha namorada.....- Falava lentamente com pausas para tentar respirar, o que fazia com pequenos movimentos entrecortados em que apenas um dos lados do corpo se movia.
Calou-se. No seu peito, uma mancha negra e quente alastrava e arrefecia lentamente empapando-lhe o corpo. Senti como a vida lhe escapava a cada instante.
Olhou para mim, os seus olhos azuis cinza iguais aos de Marlene, a quem não vejo há meses, o seu cabelo louro e negro como o dela.
Quase num murmúrio deixou escapar um pedido que apenas entendi pelo gesto de tirar a custo um envelope de dentro do blusão e que me entregou. Morreu em seguida.
Retirei do envelope uma carta dirigida aos pais e à namorada.


....................................- Queridos pais- começava a carta,
- Espero que esteja tudo bem e que esta carta os vá encontrar de boa saúde.
Estou contentíssimo.
Foi antecipado a agenda no nosso batalhão e para a semana vou gozar a licença de quinze dias por que anseio há tanto.
As coisas tem estado difíceis, mas estamos aguentando e em breve iremos receber reforços.
O nosso comandante falou ontem às tropas e disse que as nossas forças estavam a preparar o avanço final, que estávamos a progredir em todas as frentes, que a guerra estava a acabar e que com o empenho de todos, estávamos a sair vitoriosos.

Já lhes disse na carta anterior que o posto onde estou agora é relativamente sossegado e seguro, por isso nada de preocupações.
Eu estou bem graças a Deus, embora cheio de saudades de todos.

Digam à Marlene que não fique em cuidados por não lhe escrever esta semana , pois daqui a dias estaremos juntos se Deus quiser.
Digam-lhe que a amo muito e que anseio por ela
e pelo dia do nosso casamento.

Beijos a todos, e renovadas saudades.

Vosso filho que vos adora

xxxxxxxxxx


Dobrei a carta e voltei a colocá-la no envelope. Um sentimento de sacrilégio tomou-me todos os sentidos, e chorei como há muito o não fazia.
Marlene....
Também se chamava Marlene.
Cumpri as rotinas: certifiquei-me da chapa identificadora que trazia ao pescoço.
Vi-lhe os bolsos de onde retirei uma fotografia da sua Marlene: cabelos e olhos escuros como os meus. Senti o coração parar com o sentimento de miséria que me tomou.
Mas foi ao fazer a operação de segurança da arma que fiquei no estado de destroçado, desgraçado até, em que me encontro agora; o carregador não tinha já munições, a câmara vazia.
A arma...
Estava descarregada...






Charlie




terça-feira, 23 de setembro de 2008

Carta de intenções.

Faz já um bocado que lá fora, após a passagem duns vultos brancos, as luzes se apagaram e é à luz de um coto de vela que secretamente escrevo estas linhas.
Levantei-me esta manhã com a certeza de ter nas mãos
o passo seguinte, o mais importante talvez, da Humanidade.
Durante anos li, estudei, comparei as evoluções das Sociedades e as suas degenerações.
Interiorizei como tantas vidas, em vez de cumprirem o destino elevado da sua condição humana, se perderam inutilmente em miséria e sofrimento.
Em vez de amor, poesia e uma existência dirigida ao crescimento interior, apenas o seu contrário: a perpetuação da escravidão, corrupção e prepotência, ódios e guerras derivadas dos interesses quase sempre de minorias de que resultou o Homem espartilhado, limitado, prisioneiro entre fronteiras.
As fronteiras... Essas fontes desnecessárias de permanente tensão, quando afinal somos todos homens e mulheres do Mundo que apenas desejam ser felizes e cuja única fronteira natural é o limite da vida em felicidade sempre pronta a ser expandida mais além.
Por isso, relectindo esta ânsia da Humanidade que tem sido mantida quase subliminar, e bem ponderadas as acções a empreender, tomei a firme decisão de dar este passo.
Sei que durante os primeiros tempos terei de usar a força para impôr tão elevados princípios, e quiçá fazer uso disto que mais detesto: a Guerra! Mas não vejo outro meio de, no espaço curto de uma vida, produzir um resultado tão importante e pelo qual toda a Humanidade aspira desde os seus primórdios.
O fim justifica amplamente os meios!
Arrancarei ainda este ano com as minhas Forças, destruindo fronteiras, derrotando exércitos, e num arraso desta podre Ordem antes instituída, levarei por todo o lado os grandes e generosos ideais que farão o Homem finalmente cumprir o seu destino.
Quando todo o Mundo estiver conquistado, por cima dos maiores monumentos olharei o Sol de frente e sob a minha coroa de Imperador abrirei as mãos num gesto generoso de abnegação do poder e em completa dádiva. Finalmente um coro de milhões de seres, numa fraternidade humana ciente da sua igualdade, elevar-se-á aos céus em hino de alegria e liberdade.
A Humanidade entrará numa nova etapa, as artes florescerão, os amantes serão os novos Senhores da Terra e o sorriso será o rosto de cada ser humano. Finalmente começará a ser escrita a nova e eterna página gloriosa da sua História colectiva.
É esta a minha missão. A missão da minha vida.
Agora vou pousar a caneta, apagar a vela e as sombras dançantes que projecta no corredor e deitar-me, pois amanhã cedo encetarei todo o processo que levará a Felicidade à conquista do Mundo.
Esperem por mim, pois em breve estarei ao vosso lado.
Ah...quase que me esquecia de apresentar-me.
Vosso servidor, sou
de meu nome abaixo assinado:

Napoleão Bonaparte, o Corso...

Charlie

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Carta de um ex-deus

clique sobre as fotos para saber a proveniência

Agora que o passar dos séculos perdeu tudo o que dava à sua passagem sentido, deixo que estas linhas se escrevam lentamente nos bocados de pó e folhas com que o vento me tem vindo a cobrir por entre as mortalhas sucessivas de esquecimentos e ervas.

Sou dos Deuses do meu Tempo o que há mais tempo se encontra nesta posição; deitado de lado, derrubado pelas hordas de invasores que desconheciam o infinito dos nossos poderes.
Derrubaram-nos, aos Deuses menores, a golpes de espada e lança por entre os gritos e horror dos vencidos. Atirados ao chão, espumas carmim salpicadas de vermelho sobre o negro dum mar de sangue.
A outros dos mais poderosos, postos em altos pedestais disto que foi um templo, grandes e imponentes no seu brilho de mármore e granito, foi-lhes dado a desonra do degredo e cativeiro.
Derrubados com cautelas e levados a toque de chicotes e gritos por escravos miseráveis e desgraçados.
Expostos depois de longa viagem para a sua suprema humilhação e para gáudio do olhar pagão e vago de esposas e concubinas nos jardins e palácios dos generais vencedores.
Outros menos afortunados ainda jazem, no entanto, aqui espalhados pelo solo; quase enterrados por entre os destroços que os milénios arrancaram das paredes e tectos .
A eles foram-lhes cortadas as cabeças para servirem de troféus nas casas da soldadesca e serem mais tarde postos ao desprezo num canto qualquer ou vendidos a algum obscuro comerciante.
Os corpos desmembrados vivem desde então no chão, nesse inferno da escuridão e silêncio e eu miro-os neste olhar que se cega tanto com o sol nascente como com os rebentos de vegetação da Primavera que me cobre todo o campo de visão até que braseiro do Estio os transforme novamente em pó e nada...


Agora vou interromper por momentos esta escrita.
Está a chegar a hora pela qual espero todos os dias.
Dentro de poucos minutos um reflexo fará incidir sobre o meu olhar uma luz intensa e dourada, tão forte e luminosa, que durante um momento toda a terra se renderá ao meu poder ancestral.
Aos meus pés pedindo protecção, aquele abraço de amantes que de anéis nos dedos protegeu o meu corpo caído enquanto o seu era trespassado pela impiedade das espadas.
Renovarão nessa altura em raios de sol, a jura de eterna pertença: A mim, o Deus do Amor...


Charlie

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Carta dum caminhante

Estou a fazer uma curta pausa.
Não sei há quantas horas caminho por esta praia sem fim.
Tenho os olhos tão fechados pela intensidade do sol e o branco da areia, que me doem todos os músculos do rosto pelo esforço feito ao confiná-los a uma linha atrás da qual observo o azul profundo desse apelo determinante do meu ser.
O peito aspira os intensos aromas trazidos pelo vento; ora com a frescura do mar a desfazer-se a toda a hora em espumas, ora tórrido e ressequido, vindo da terra com os seus cheiros distantes de erva seca e folhagens em penitência.

Não sei bem quem sou nem onde estou, para dizer a verdade, não faço sequer qualquer ideia pois desde que dei por mim neste sitio deitado no areal debaixo dum céu coberto de estrelas, ainda não vi uma alma que fosse.
Sob a noite que clareava fui observando por entre as neblinas - que rapidamente se iam esvanecendo à medida que a luz crescia - a lonjura ora para um lado ora para outro; para me situar, para decidir qual o rumo a tomar embora, então como agora, se assuma algo difícil fixar referências neste areal tão igual e extenso que se perde de vista seja qual for a direcção que os olhos sigam.
Finalmente decidi-me.

Encetei esta caminhada na certeza de ter que chegar a um lugar qualquer, e munido do meu propósito firme, andei desde os primeiros raios de sol - mal estes espreitaram por trás do horizonte - até à quase exaustão, quando surgiu de súbito uma esperança no caminhar que a certa altura ameaçava ser sem sentido.
Senti-me então animar e acelerei o passo. Tinha a certeza de estar no bom caminho e confiante continuei, já com mais vontade, mais querença, diria, mais certeza.
Andei sem medida nem tempo, certo de estar próximo de chegar a alguma parte, fosse qual fosse, embora o areal continuasse tão extenso nessa altura como horas atrás quando tomara conta deste empreendimento.
Continuei a andar, sem noção precisa de espaço nem de tempo, num penoso continuar de passo após passo, ora todo querer, ora arrastando o soçobrante cansaço, rumo fixo no horizonte.
Depois, já esgotado, senti por breves instantes a invasão amarga do desânimo, mas quis o Destino que algo de extraordinário voltasse a acontecer e por isso fiz esta pausa, para retemperar forças e escrever estas linhas.

Cheguei a este ponto onde descanso e estou imerso numa profunda alegria, um contentamento tão grande que nem encontro palavras para exprimir.
Toda uma enorme euforia tomou conta de mim, pois sinto estar a chegar ao fim desta caminhada de horas intermináveis e que ainda há minutos ameaçava ser infinita.
Levanto-me exultante e todo eu sorrio de alegria.
Agora que já descansei vou retomar o caminho que resta.
É possível que não esteja já longe de chegar a algum lado pois às pegadas que eu encontrei na praia - depois de muito andar- e que ando a seguir há horas, se juntaram outras.
Devo estar próximo, muito próximo...


Charlie

domingo, 8 de junho de 2008

Edium Editores - textos - Amante das leituras

(clicar sobre a imagem para ver pormenores)

Alguns dos textos constantes deste blogue, e outros inéditos, constam da Antologia Poética, Amante das leituras edição 2008, sob a chancela da Edium Editores de S. Mamede de Infesta- Porto e foi apresentado ao público no Salão Nobre da Junta de Freguesia de S. Mamede de Infesta no passado dia 31 de Maio.

Esta edição conta com a participação de 18 autores, de Portugal, Brasil e Argentina, da lista "Amante das leituras", organizada por Ana Maria Costa,sua proprietária.
A apresentação esteve a cargo do Prof. António M. Oliveira.
O evento contou com as participações da Orquestra de Sopros do Conservatório de Música da Maia, do Coral Juvenil do Orfeão de Rio Tinto, da Escola de Dança "La Negra" e teve ainda uma "desgarrada" de poesia pelos actores: Bárbara Martinho, Carolina Rangel, Filipe Carvalho, Otília Costa, Rúben Correia e Sandro Ferreira.


Para adquirir um ou mais exemplares desta antologia pode contactar o autor deste blogue ou a Edium Editores, editora apostada na qualidade editorial e na excelência dos seus catálogos.

Charlie
(Carlos Luanda)

quinta-feira, 24 de abril de 2008

A Liberdade

A Liberdade.

Conheci a Liberdade pela altura do 25 de Abril de 1974.
Era na época militar por dever e durante algum tempo passei a sê-lo com gosto.
Olhámo-nos nos olhos, sem nada dizer, e de imediato despertou em nós a ponte que liga os corações apaixonados.
Ia no Metro para encontrar-me com amigos algures na zona de Entrecampos mas sai logo junto com ela nas Picoas.
Era uma rapariga mais jovem que eu, todo ela promessa de mulher.
Não lhe disse nada nem ela me perguntou o que fosse.
Entregámo-nos logo um ao outro e amámo-nos sem peias ou amarras, sem limites ou planos de futuro, com a sensação de termos atingido o momento definitivo das nossas existências.
Não estabelecemos compromissos nem alianças.
Não fizemos planos para o Futuro. Não lhe pedi juras de amor eterno nem lhe ofereci nada nem ela me deu mais em troca do que era uma dádiva mútua generosa e única. Bastava-me tão só te-la, a Liberdade.
Passeámos muitas vezes pelas ruas, e toda a gente olhava para nós. Sentia que todos amavam a Liberdade e que amavam o nosso amor.
O tempo passou.
O que era eterno e imutável passou a ser só um episódio das nossas vidas.
Deixei de vê-la.
Troquei a Liberdade por outras paixões que me vieram cruzar o caminho.
As paixões foram sempre inimigas da Liberdade...
Há tempos atrás voltei a vê-la.
Estava mais velha que eu.
Chorei ao reencontrar-me com ela.
Beijei-a e disse-lhe tudo o que me ia na alma.
Mas ela secou-me as lágrimas e disse-me que fora sempre assim através dos tempos.
A Liberdade será sempre a jovem generosa que trocamos por outros valores em maior ou menor grau.
Contou-me as peripécias destes últimos anos.
Do amor que dera a todos.
Dos que quiseram apropriar-se dela.
Dos que a maltrataram, dos que a quiseram acima de tudo e que por ela haviam dado a vida.
Olhei os seus olhos cansados e revi-me no reflexo do seu brilho apagado.
Olhámos um no outro durante uma eternidade enquanto ela afagava as minhas rugas.
Falámos um longo período, revendo rostos revivendo tempos...
Por fim disse-me que se iria embora.
Iria talvez sair do País.
Iria procurar um sítio onde estivessem ansiosos por ela.
Lá talvez voltasse a encontrar numa paragem de Autocarro ou num Metro um jovem que a amasse eternamente.
Despedi-me dela com um longo beijo.
Foi a última vez que vi a Liberdade....

Charlie


(Escrito em 2005)

sábado, 8 de março de 2008

Carta dum vagabundo

Escrevo esta carta como último vestígio de mim mesmo, última pegada na terra antes de levantar-me na leveza e voo do anonimato.
Do coração sinto as batidas em cada passo com que os meus pés descalços pisam a terra sob a qual ele está enterrado.
Vestido de vagabundo, poderei olhar na profundidade do olhar de cada ser humano sem que tenha de suportar em retorno, a cobiça dos seus olhares.
Das riquezas do mundo, ao abdicar delas, serão todas do que sempre foram; do mundo e não das mãos. Essas que num momento que é a vida, avidamente as seguram na ilusão de que a imortalidade dos seus valores lhes confere, pela sua temporária posse, essa mesma qualidade.
Deixarei com alívio esse mundo de fantasia com que todos se iludem e fazem do viver uma peça tragico-cómica mal representada, em que todos os actores se espreitam e fingem acreditar em si mesmos.
Nos meus bolsos não haverá mais nada a não ser o ar para que eu ali possa caber todo em dedos quando o mundo me encher com a generosidade dos elementos.
Vou partir em breve para junto do mar onde vagabundearei livre de obrigações, de compromissos e do peso das invejas desmedidas de que está livre quem já não existe.
Palmilharei as veredas de prata e de fogo, os murmúrios em orvalhos nos lábios e as espumas estremecedoras das infinitas fúrias.
E serei eu e não este personagem com nome que não escolhi. Serei da areia, o grão livre.
Do mar, o sal saboreado na ponta da língua.
E serei por do sol e o beijo da Lua em flor; o infinito verso nu mergulhado na transparência dum corpo feito universo...

Charlie

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Poemas do Velho da Ilha

foto: daqui


Sentado num tronco seco, todo branco que já conhecera anos de naufrágio e depois dera toda a cor ao Sol ao dar á costa, o velho riscava rabiscos na areia.

Riscava e tornava a riscar passando com o pé por cima de tudo e voltando a riscar nos mesmos sítios com outros desenhos herméticos e abstractos.

Ria-se para eles e fechava os olhos falando baixinho. Recitava alto, voltava a abrir os olhos e voltava a riscar na areia.

- O que fazes? - Perguntou o rapaz recém-chegado que ficara olhando para ele com curiosidade.

- Escrevo poemas. - Respondeu o ancião.

- Mas poemas? Com riscos que não são letras nem desenhos?...- Fez-se uma pausa, e depois o velho continuou:

- Não sei ler. E cada traço destes é uma ideia, um mundo que eu construo no meu interior. Estás a ver este traço? É uma ilha. A minha ilha. O que eu daria para poder ir até à ilha e voltar a estar com ela…

- Mas isso é fácil amigo. – Interveio o jovem. – É só ir ali pela ponte…. - O ancião nem olhou na direcção que o jovem apontava. Fez mais uns traços na areia e sem levantar os olhos disse:

- A ilha que tu vês já não existe. A ponte que lhe fizeram é uma lança que a despejou da vida que tinha quando eu a visitava. Tinha de ir a nado na maré baixa de banco de areia em banco de areia, e lá moravam os espíritos que sangraram até à morte. – Agora o rapaz olhava extasiado para ele.

- Conte como era a ilha no seu tempo…-

O ancião olhou para o jovem e disse-lhe com ar grave:

- Não te posso contar o sítio onde fui feliz por instantes. A felicidade é feita só de instantes breves que ficam a morar no nosso espírito eternamente. Só assim a lembra-las somos felizes durante a vida e repetimos os momentos. Mas a ponte sangrou os meus instantes e esvaziou a eternidade dos tempos. Como queres que te conte se estou vazio?....-

O jovem olhou para a ilha e para a ponte e sentou-se junto ao velho.

- Por isso faz poemas na areia ….. -

- Sim – disse o Ancião. – Faço poemas com a eternidade do meu pé ao passar por cima deles. São apenas instantes sem eternidade, essa foi-me tirada, nada mais me lembra nada mais me resta senão ir em frente sem olhar para trás navegando nestes poemas que se desfazem como os rastos que a minha alma faz na água onde procura a ilha num futuro que já não existe…..-

E dizendo isto ajeitou o pé e apagou o jovem e o dialogo que tinha estado a riscar com ele na areia da praia….


terça-feira, 27 de novembro de 2007

Ponto de vigia...


Recordações...


Todos os dias, com a mesma força que sentia da tua
presença, deixava que o mar me tomasse.
Primeiro apenas um vestígio, um mero salpico que ficava em pequenas esferas presas no que sentia serem pêlos dos braços, pele do rosto e comissuras de lábios.
Era então que fechava os olhos e que te saboreava. Língua a passar lentamente pelo lábio superior, recolhendo memórias dos teus sabores.
Mas eram apenas isso; memórias.
Há coisas que vivem em nós com a força da verdade sendo apenas ideias e lembranças vagas.
Sensações que só existem nos nossos interiores imensos.
Senti a pouco o mar encharcando os pés e eras tu que me agarravas pelos tornozelos e me puxavas para ti, enquanto me ia enterrando mais e mais na areia à medida que novamente e em ondas mansas, me lambias nos teus fluxos e refluxos.
Senti-te no sol que me mordia.
Como sempre morderas, olhos escondidos e felinos atrás do vidro escuro dos óculos de sol, emboscando o olhar assaltante e desejoso.
Por um instante, num breve relampejo de tempo, senti-te dentro de mim. Calores e aromas do teu poema em fêmea.
Relevos e saliências em perfeita união com o meu corpo...

Abri o peito em som num breve cântico à minha união com a natureza.
Uma nota apenas que me fez estremecer no puro gozo de existir.
Só um grito curto a prolongar-se no ecoar nas rochas que estavam por trás de mim, misturando-se em sinfonia com o coro quase rotineiro da terra e mar em negociação permanente...


Inspirei num sorvo profundo todo o mar e dei um pequeno

passo para me equilibrar.

Depois abri os olhos e regressei ao meu ponto de vigia.

Abri as asas e voei para o alto do mastro onde te observava na

praia desde o dia em dera por mim renascido em gaivota...



Charlie

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

A ilha...


Pisei, olhando para a distância, a orla de areia que o mar lacrimejava.
Senti os pés húmidos e escutei o borbulhar suave da breve espuma que escorria entre a multidão de seres minúsculos que habitam o universo infindo das partículas de areia.
Aqui e ali, podia adivinhá-los a esconderem-se rapidamente e para sempre em segurança até que viesse a próxima vaga.
A Lua estendia o seu eterno mar de prata com o que inundava as praias das almas
que sabem pertencer-lhe.
Eu sei que há pessoas que são pertença dela!
Sinto-as meus iguais quando estão junto a mim.
Todo o meu corpo fica presa das ondas que emanam dos seus mares.
Não preciso que digam nada.
Que me olhem, ou que sorriam.
Basta existirem próximo de mim
Sinto-lhes o bater do coração dentro do meu peito, e faz-se me um nó na
garganta
Sim porque eu sou um ser da Lua...

Achei uma ilha!
A minha ilha fica mesmo ali quando a sua Mãe sai parida do mar, subindo aos
poucos no céu.
Nunca repararam?
Hão de ver nos dias em que já próximo da Lua Cheia surge do nada rente ao horizonte.
Se olharem com um pouco de atenção verão no colo da Mãe, num suave embalo, o
perfil das palmeiras e coqueiros, encimando um peito de mulher.
É a minha ilha!
Quis sempre visita-la. Penetro no mar e nado para ela até ficar sem forças.
Deixo afogar-me.
Já estive quase a chegar lá e guardo na minha boca o sabor das águas que
banham os seus lábios...
Acordo sempre com os pés a pisar a areia e dou com a Lua já alta.
É sempre ela que me salva e me põe de volta neste areal imenso. A perder de
vista...
Este areal sem fim antes não existia.
Era uma extensão de rochas onde eu era uma fortaleza inabalável.
Depois....
Depois descobri a ilha rente à lua ás portas do horizonte e chorei a
distância em mares e oceanos.
Agora tudo secou e dos meus olhos só saem grãos de saudades duma ilha onde
nunca estive...

Sentei-me um pouco a pensar em tudo e chorei um castelo de areia.
Uma onda veio e puxou-a para dentro de si.
Para o mar das lágrimas para onde escorrem os castelos das saudades...

Charlie


sábado, 22 de setembro de 2007

Folha de Diário dum Viajante


Estive agora mesmo sondando a infinita linha que separa o mar dos céus. Ali nesse ponto do convés onde a proa perfura o horizonte em investidas sucessivas e espalha os seus avanços em espumas a desfazer-se nos salpicos de lábios que o sol tem vindo a salgar no decurso de toda uma vida de mar.

Durante um instante fechei os olhos e revi-me na alegria das ilhas encontradas, na miséria e solidão dos naufrágios, no desespero da viagem perdida e no alívio final do resgate. Muitas vezes a nado, numa fuga suicida para a frente, a caminho do abismo que todos sabemos existir onde o mar acaba.

E passei todas as vezes por esse portal, por onde apenas se passa uma vez, que não tem retorno e que termina na vertigem da queda miserável onde morro e renasço em voo no grito da gaivota de céu que me acorda novamente da sesta, já a bordo de novo navio...

Agora, sentado à mesa de caneta na mão, saboreio o amargo duma bebida forte que detesto e faço uma careta de desagrado.
- Porque é que temos esta incontornável sina fazer as coisas erradas mesmo sabendo o amargo que nos deixam? Porquê este precisar de querer sempre de engolir todo o mar?
-Não nos basta com o sabe-lo salgado... -

Aborrece-me este mar chão e calmo. Quero a revolta das suas ondas ansiosas por desfazer o meu corpo, os seus ventos a rasgar as velas, a aflição de sentir nas tábuas a ranger e mastros a vergar, toda a tempestade que é a minha alma feita da teia de cordames e fogos fátuos de ilhas flutuantes avistadas nas reverberações cálidas do ar.

Já avistei muitas dessas ilhas, quase todos os homens do mar as avistaram, alguns sem nunca terem visto o mar, outros apenas mar e nunca as ilhas. Nenhum homem jamais lhes pisou o solo por mais ilhas onde tenha naufragado, iludidos com a sua descoberta.

São ilhas afortunadas, que se soltam dos fundos, entram nos sonhos e se desfazem em lágrimas e mar quando acordamos.

A minha sina é procurá-las e avistá-las sem as encontrar, numa viagem que passa, possui-las não possuindo e escutá-las não escutando, ser eterno viajante ansioso por nunca encontrar mais do que a Pessoana procura...


Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só o mar.

Fernando Pessoa


..Pouso a caneta e volto ao convés de copo na mão.
A viagem continua....


Charlie

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Carta de descoberta.


Descobri esta carta nos recantos de mim.
Sempre desejei escrevê-la e guardara este ensejo para o dia em que me apaixonasse verdadeiramente.
Sentia os anos passar.
A loucura dos meus anseios íntimos a transformar-se a pouco e pouco de ribeiro irrequieto em lago descansando na mansidão da rotina, sem que nunca tivesse experimentado a vertigem da queda de água em cascatas loucas de paixão e carregadas de biliões de sois capturados nos infinitos arco-iris que as gotas suspensas na leveza do amor inventam.

Mordi os lábios tanta vez olhando para a lua cheia, lendo os Poetas e perguntando-me:

- Onde estás tu paixão, que se me foge a vida e não te vivo. Serão estes poemas apenas devaneios loucos ou será que alguém conseguiu sobreviver alguma vez prenhe destas loucuras?-

Arrumava os poemas entre o pó dos amores frouxos de tempos idos.
Amarelos de tão esquecidos, e seguía com as perguntas-respostas que eu próprio criava:

  • Poderá um cego de nascença alguma vez descrever as cores? Seguir em mente as fluorescências do sol esvoaçados nos caprichos duma borboleta?
    Ou imaginar a profundidade infinita dum céu povoado de milhões de estrelas?
    Saberá ele, em resumo imaginar sequer o que é a escuridão?
    Ele que sempre a conheceu nem poderá jamais descrevê-la, para isso teria de sentir a ausência da luz, a angustia da sua falta. Ver todo o mundo desaparecer no negro breu, mas para que isso acontecesse teria de ter sentido primeiro o calor da luz no seu olhar... –


Depois, sem que o esperasse e vindo do nada surgiste tu, e eu nasci.
O céu abriu-se em ferida à tua passagem pela minha vida.
Senti como a paixão faz doer. Como a luz intensa cega a quem nunca viu.
Descobri a profundidade do espaço infinito e vazio nos minutos em que não estás.
Sei agora que toda a verdade chorada pelos os poetas fica aquém do que um peito sente.
Que amar é sim e só perdidamente.
Que só ao sangrar se vê o peso do sentimento.
Inspirei.
Abri a alma e descobri-te junto à esta carta.
Afinal estiveras sempre aí.
No fundo de mim junto a ela...


Charlie

Fevereiro 09, 2006

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Intervalo para divulgar o "Prémio Blogue 5 Estrelas."

Sem que isto seja uma carta, de Nada pra mim veio esta iniciativa que me foi entregue por esta simpatia e passando o testemunho divulgo as minhas escolhas e o restante que segue.


"1. Podem participar na votação todos os bloggers que mantenham blogs ativos há mais de um mês [os outros esperem por outra ideia brilhante que alguém irá ter].
2. Cada blogger deverá referenciar cinco nomes de blogs. A cada menção corresponde um 1 voto.
3. Cada blogger só poderá votar uma vez, e deverá publicar as suas menções no seu blog [da forma que melhor desejar], enviando-as posteriormente para o seguinte e-mail: elzinhalinda@gmail.com. No e-mail, além da sua escolha, deverão indicar o link para o post onde postaram as nomeações. A data limite para a publicação e envio das votações é dia: 27/08/2007.
4. De forma a reduzir alguns constrangimentos [e desplantes], e evitar algumas cortesias desnecessárias, também são considerados votos nulos:- Os votos dos blogger(s) em si próprio(s) ou no(s) blogue(s) em que participa(m);- Os votos no blog Nada pra mim.
5. Cada blog que for indicado ou indicar, deve conter de onde veio a origem do concurso, ou seja deverão manter um link para este blog afim de que outras pessoas possam conhecer a idealizadora da idéia.No dia 31.8.2007 serão anunciados os vencedores."
(Origem em Nada pra mim )



E os meus indicados são:

1 - http://www.estudioraposa.com/
2 - http://www.aliciante.eu/aliciante/?redirect=weblog
3 - http://pracadarepublica.weblog.com.pt/
4 - p://www.fotosdanadir.blogspot.com/
5 - http://eroticidades.blogspot.com/

Parabéns e boa sorte

Carlos.

*********************************************************************************************

Seguem as CARTAS SEM VALOR

**************************************************************

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Teria escrito uma carta.

Teria escrito uma carta se tivesse sabido de que maneira

o poderia ter feito.

Não sabia ao certo como tinha ido parar ali. Não me lembrava de ter memórias antigas e sem saber porquê, todo o conhecimento de mim próprio cabia em poucas horas. Muito vagamente umas leves impressões de como olhara para o Sol a pôr-se antes do anoitecer que agora terminava. Umas deambulações por aqui e por ali meio perdido, e depois, sem ter noção precisa, o aparecimento naquele espaço onde agora me encontrava, e onde descansara sem saber em que sítio exacto, deixando-me envolver pelo manto suave do cansaço após ter fixado o meu olhar na beleza daquele ser que estava ali. Deitada à minha frente...

Os primeiros raios a ameaçar rebentar o horizonte, ao entrar pelos rasgos da persiana, fizeram-me despertar e inspirar fundo o puro gozo de existir.
Estava dono duma leveza inebriante, ultrapassando os limites dum corpo que nem sentia, e todo o espaço me cabia num gesto.

Olhei para um lado e para outro, mudei de posição sempre com ela na mira. Era linda, toda suavidade e maciez, um hino à feminilidade despertando todos os quereres. Atrevi a aproximar-me levemente do seu ombro, tocá-lo e saborear o suave aroma que a sua pele exalava, mas hesitei no último instante. Não sabia como ela iria reagir ao meu afago, ao meu toque, e agora que estava tão próximo dela, todo o desejo avivava, fazendo crescer a agua na boca, mas no último instante resolvi adiar por momentos o encontro com o meu desejo. Senti o calor do seu corpo e de como ela nesse mesmo momento, ao mover-se na cama, despertara do seu sono.
Afastei-me devagar de forma discreta sem que tivesse dado pela minha presença. Ali para o fundo do quarto onde fiquei olhando para ela que entretanto se levantara.
Mesmo sentindo que não tinha corpo escondi-me atrás das franjas do cortinado que estava aberto, expondo as nesgas da persiana por onde o ar fresco entrava, enquanto seguia como ela deambulava pelo quarto e expunha toda a sua nudez apetitosa aos meus instintos e apetites. As curvas do corpo, o brilhar dos olhos, o convite dos lábios húmidos, o mundo dos aromas que me chegavam aos sentidos.

Saiu e voltou depois duns minutos exalando vapores e aromas novos, adocicados. O cabelo molhado que ela massajou com uma toalha e que sujeitou depois à disciplina dum pente. Vestiu um roupão e foi para outro compartimento.
Resolvi segui-la. Agora era uma cozinha. Cheiros muito diversos enchiam-na por completo e olhando melhor para ela via agora como expunha uma orelha por entre a suave nuvem de cheiros que saíam do seu cabelo ainda húmido. Abriu uma porta e tirou um recipiente. Encostou-o à boca e de olhos fechados deleitou-se lenta e gostosamente. Foi então que me aproximei do ouvido exposto por entre a sinfonia de tons reflectidos vagamente pelo sol a nascer e que através da janela incendiavam o cabelo em doces chamas e nuanças. Cheguei-me lentamente a ela, cada vez mais próximo, até ficar a um mero nada de dar-lhe um beijo, de passear-me por ela e saborear a beleza do seu corpo....

Assustei-me pois repentinamente ela pareceu ter dado pela minha presença, rodando a cabeça com os olhos a seguir vagamente onde eu poderia estar. Não sei como ela deu por mim, pois nem eu próprio tenho noção de ocupar espaço algum.
Escondido por trás dum armário vi como ela mexeu num botão na parede.
Um milagre tomou repentinamente forma. Toda uma alegria se instalou de forma inesperada naquele recinto. Tudo ficou inundado duma luz intensa e bela. Uma verdadeira maravilha, um paraíso para os sentidos sob aquele apelo irrecusável de beleza e excelência. Todo o espaço ficou recheado dum jogo extraordinário de efeitos de cor e brilhos irreais, verdadeiros prodígios para o sentido da visão.
- Que maravilha! -pensei. Por um instante esqueci-me dela e com toda a luz no olhar desloquei-me atraído pela dança que se espalhava pelo recinto da cozinha. Por todo o lado a luz me inebriava e atraia, mas ali, num ponto que de repente descobrira, tudo era mais belo e apelativo, toda uma grandiosa sinfonia de luz a correr em nascente me chamava e dava-me corpo.
Quase que me tinha esquecido da mulher que agora parecia estar a ver-me. Levado pela minha alegria passei novamente junto a ela, e enquanto me deslocava na direcção da fonte em cascata de todo aquele fantástico apelo, olhei-a maravilhado nos olhos. Sorria-me e eu sorri para ela um mero instante antes de sentir todo o meu ser atravessado por uma forte vibração ao mesmo tempo que toda a luz se incendiava para me deixar depois mergulhado na completa escuridão sem que tivesse mais noção do meu existir...

Cá em baixo, com o pacote de leite encostado aos lábios, ela bebia a satisfação da vitória rápida sobre a incómoda mosca que desde a manhã a perseguira...

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Carta dum recém chegado.

Olá.
Escrevo-vos para dizer que cheguei.
Mal pus os olhos na rua larga cheia de sol, de casas quase todas de um ou dois pisos, com árvores ainda pequenas ladeadas de suportes e flores e onde algumas pessoas passeavam olhando para as montras, soube que este era o meu destino final.
Respiro bem fundo os aromas deste sítio e por um instante fecho os olhos.
Quero ter bem gravado na retina esta imagem para sempre e descobri-la sempre nova ao abrir do olhar.
Estou cá já há três dias.
Desta vez não farei como das outras anteriores!
Nos diferentes lugares onde vivi, percorri os sorrisos de todas as travessas, todas as ruas e largos.
Parei nos cafés e praças.
Conheci as pessoas uma a uma.
Apaixonei-me pelas pernas e olhos das mulheres e os seus corpos em sabores de silêncio e lençóis.
Bebi com os seus pais, irmãos, maridos e namorados.
Ouvi as histórias de uns e de outros. Tomei partido pelas misérias escondidas que os separavam e enterrei todo encanto das ruas largas dos dias das descobertas nas vielas mal cheirosas, tortuosas e escuras, que me haviam escapado nesses primeiros tempos.
Saí sempre enjoado e desencantado. Embrenhado nas desavenças, desavindo com muitos que me haviam devolvido os sorrisos da chegada, e desejando nunca te-los encontrado.
Agora, desta vez, tudo será diferente; tudo será sempre o esplendor do primeiro dia!
Jamais sairei desta rua principal.
Não quero saber se é uma cidade ou vila, aldeia ou um sonho. Nem sei bem onde estou, mas não irei espreitar no mapa os limites dos seus segredos.
De todos os rostos que se cruzarem com o meu, nem um só traço irei decorar.
Darei os bons dias às senhoras e voltar-me ei para mirar-lhes as pernas sem ter fixado um só pormenor dos seus sorrisos.
Não irei entrar nos cafés a perguntar pelas novidades nem darei o meu nome a ninguém.
Desta vez serei só o sol a passear-se em brilhos pela calçada a quem ninguém faz perguntas.
Desta vez serei só eu e o meu encanto.
Desta vez bastar-me á fechar os olhos neste quarto que tomei na pensão, limpa e de esplendores nas floreiras das janelas, cujo nome fiz por nem olhar e pertencente a uma mulher linda que se chama Luisa e que é divorciada.
Tem um filho ainda menor e o seu ex-marido é um sacana que quer vender a pensão para ficar com metade do dinheiro.
Ela já falou com o advogado do escritório ao fundo da rua principal, mas de quem está desconfiada estar feito com o seu ex.
O ex acusa-a de ter um namorado, um que tem um café mesmo ao meio da rua, mas ela diz que é livre de relacionar-se com quem quiser.
Esta manhã quando ia a descer, vi uma mulher mais velha a chama-la de puta e a insultá-la de andar a querer a desgraça do filho que precisa do dinheiro da venda da pensão para refazer a vida e que ainda antes que o tribunal decida, ela mesmo lhe tratará da saúde.
Calou-se quando me viu e saiu à pressa.
Dei os bons dias e saí para a luz do dia enquanto, já na rua, ainda ouvi o miúdo a perguntar à mãe o porquê da avó andar aos gritos...

sábado, 23 de junho de 2007

Carta dentro duma garrafa.

De novo...
Voltou a acontecer.
Sem que eu tivesse feito nada para que isso sucedesse, pelo contrário, - evitando os meus pensamentos na hora de deitar-me - tudo se repetiu uma vez mais.
Incessantemente e de maneira constante, noite após noite, de forma contínua e ligada em episódios.
Tenho este sonho sempre igual há tantos anos que já nem me lembro bem do primeiro dia em que comecei a sonhá-lo.
Sonho que estou só.
Completamente só numa ilha que também seria solitária se não fosse ter sido eu a naufragar ao largo dela, na ocasião em que começaram os meus pesadelos, e ser assim o seu único habitante.
Durante o dia estou bem, nas minhas tarefas diárias, junto aos meus amigos e à mulher que amo com a mesma paixão e entrega há mais de trinta anos. Mas mal fecho os olhos eis que desperto nesta ilha onde me encontro agora a escrever-vos.
Na manhã - cuja data não me recordo - em que sonhei ter naufragado, íamos todos juntos atravessando o Pacífico no iate que eu tinha nessa altura.
Lembro-me de tal forma de tudo o que aconteceu neste meu sonho como se tivesse sonhado hoje.
Tinha estado com ela na proa olhando para esta ilha que agora os meus sonhos aprisionaram. Beijávamo-nos e o sabor da sua pele sabia-me ao sal do mar que eu amo desde criança e que agora é o meu carcereiro. Passei-lhe as mãos pelos cabelos, dedos a deslizar suavemente, descendo pelas ondas do nosso querer. Naveguei língua e boca pelo seu pescoço e saboreei o mar ainda mais intensamente. Abraçámo-nos e senti-a toda mulher encostada a mim. Depois descemos para a cabine enquanto eles se riam com os seus copos de Martini nas mãos e falavam uns com os outros. Disse para tomarem conta do leme e que se aproximassem com cuidado da ilha.
Depois..
Só me lembro da sua nudez e corpo quente, tão desejoso quanto o meu e o tremendo encontrão que dei com a cabeça quando o barco encalhou numa enorme pedra submersa e se partiu em dois.
Dei acordo de mim já na areia recheada de destroços e dos corpos de dois dos meus amigos e da minha mulher.
Sepultei-os a pouca distância da praia e visito-os todos os dias.
Meu Deus! Cada vez que relembro esta parte do meu primeiro pesadelo fico numa tremenda angústia pese embora a distância imensa levada no tempo.
Depois vem a rotina neste sonho sempre igual. Acrescento mais um traço; mais um dia, numa tábua dos destroços com que fiz a cabana. Dou voltas pela ilha solitária, colho frutos, pesco qualquer coisa, ponho umas flores nas campas e subo à nascente mais para o interior para encher uma vasilha com água.
Já tenho falado à minha mulher no tormento que à noite me assola. Ela ri-se com o mesmo sorriso que não envelheceu nem um dia decorridos que são mais de três décadas. Bem ao contrário do que se passa neste sonho em que tudo ganhou o cinzento de trinta e muitos anos aos quais quase perdi o conto, apesar das marcas diárias com que colecciono os dias passados.
O meu cabelo está enorme, tenho umas barbas até à cintura, estou desdentado e extremamente magro, e vi bem o meu mísero estado, de rugas profundas e roupas em farrapos, quando me pus a reparar na figura reflectida na superfície da água da vasilha.
Estou velho, tenho envelhecido dia após dia dentro deste pesadelo que vivo intensamente e que não me larga.
Depois o cansaço do sonho vence-me e acordo com júbilo longe desta ilha, junto ao seu corpo de mulher entrelaçado com o meu sob os mesmos lençóis.
Fazemos amor, damos duche juntos e vejo ao espelho como estou jovem...
Ai como gostaria que me libertassem desta prisão que me agarra mal os meus olhos se fecham. Por isso escrevo esta carta. Vou encerrá-la dentro desta garrafa e atirá-la ao oceano..
Que bons ventos e marés a levem onde outros sonhos me façam noutro sonho despertar...