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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

...Sim!... Duplo, se faz favor...-

Por Charlie

 


Gostava de olhar a forma como ela distraidamente puxava a alça do vestido, primeiro com o dedo indicador, fazendo depois deslizar o polegar junto à pele. Docemente até ao interior de encontro ao rebordo do soutien, repetia o gesto devagar para depois olhar para o lado enquanto a mão de forma instintiva ajeitava o cabelo junto à orelha
O meu copo, onde umas pedras de gelo estalavam sob uma nova dose de bebida acabada de servir, pareceu-me de repente a fronteira dum intruso escondido algures por debaixo da pequena mesa desde onde espreitaria, impune através do vidro, seguro da sua invisibilidade.
- Sabes?...- disse-lhe. –Há quanto tempo desejava estes momentos. Poder sair contigo e apresentar-me ao mundo ao teu lado. Sem receios de sermos vistos e denunciados. Poder dizer: amamo-nos! Aqui estamos! Vejam, olhem para nós!... -
Um silêncio sobreveio.
- Não estás feliz? - Perguntei-lhe com um sorriso no rosto perante o silêncio que obtivera como resposta. Bebi um pouco enquanto olhava para ela que me evitava o olhar. O meu a percorrer aqueles traços de corpo que por melhor que me parecia conhecer, mais e mais me faziam despertar para a eterna descoberta.
Pela primeira vez em muito tempo, contudo, voltei a ser tomado por aquela sensação que desde que a conhecera se esfumara do meu léxico emocional.
Fiquei olhando longamente para ela, molhando os lábios, lendo as linhas do seu desconforto.
Já dobrado o cabo dos cinquenta, conhecia por demais as pessoas para me iludir fosse com o que fosse. Por muito que estivesse enebriado por ter na minha vida aquela mulher que conhecera sem saber como, - ela à beira do divórcio, - numa relação secreta sempre em crescendo que terminara com o meu casamento de décadas, o seu desviar do olhar despertou-me um incontornável sinal de alarme:
- O que se passa? Podes dizer-me?-
Pôs-me as mãos nas minhas que senti ligeiramente frias e húmidas.
- Sabes...estou para dizer-te isto há já algum tempo.
- Mas o que se passa? – adiantei, quase com um nó na garganta,
- Conheci-te, - disse ela,- numa circunstância tão especial, estava tão carente de afectos, de tal forma náufraga e necessitada duma tábua de salvação... Tu foste tudo isso para mim. Foi contigo que me reencontrei, que reabri os horizontes, que me senti novamente na senda do meu destino. Mas agora...
- Agora...!?- atalhei quase num grito a custo dominado, - Agora o quê?..., - as palavras de voz já mais contida, pesasse embora o embargo e a dificuldade em engolir.
Segurou as duas mãos de dedos unidos em frente aos olhos fechados como se repentinamente estivesse em oração. Depois baixando os braços, fixou o meu olhar e continuou:
- Sei o que te vai custar isto, mas tenho que dizer-te: não quero viver novamente num engano, nem enganar-te. A minha vida era uma prisão. Tu foste muito importante, mas apenas porque eu estava carente, com falta de autoestima, desesperada, sei lá... Mas agora... agora que volto a sentir pela primeira vez em tantos anos a leveza da liberdade... Não quero mais prisões, entendes? Antes que seja mais tarde...que doa mais, a ti e a mim...Desculpa-me se um dia puderes...-
Levantou-se e, sem mais uma palavra, retirou-se.
Fiquei olhando para o seu corpo que se afastava enquanto ajeitava as alças que horas antes eu ajudara a saltar sobre os ombros, primeiro um e depois o outro. Como tantas vezes fizera, ela em frente ao espelho, eu por trás, mestre quase invisível que lhe inventava o corpo em gestos de magia, que já nu se fundia na nudez do meu num abraço intenso a derramar-se sobre a cama onde naufragávamos, como tantas vezes fizéramos, em lábios e corpos fluindo no mar comum que era o nosso...
Bebi o copo todo de uma vez, detendo as pedras de gelo num encontro frio junto à boca enquanto os olhos fechados não conseguiram conter o calor e sal dumas patéticas lágrimas.
Pousei o copo e levantei o braço: - Faça favor, - disse quase surdamente perante o assentimento expresso no olhar e aceno de cabeça do barman.
– Traga outro...
Sim!...Duplo, se faz favor... -


sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Ata.


Texto decifrado entre as nervuras das rochas nas cavernas da invenção da memória


Ata olhou uma vez mais para o vulto que a noite absorvia, com uma quase sofreguidão, à medida que ele se afastava, caminhando um pouco destacado do grupo de homens.
Na caverna, de repente tornada enorme, os restantes membros da tribo ajeitavam-se em redor dos restos das fogueiras projectando efémeras e grotescas sombras pelas paredes. Enormes e assustadores espíritos emergindo de impensáveis ancestralidades, eternos e intemporais...

Org voltou-se fitando o olhar de Ata por um breve instante antes de sumir-se na escuridão que uma lua cheia prestes a romper o horizonte ainda não iluminava.
Iam para a caçada. Preparar as armadilhas para onde encaminhavam as peças a
abater em salvas de flechas e machadadas.
Todas as luas eles saíam passando vários dias e noites fora. Regressavam depois com a carne que a seguir elas, as mulheres, tratavam e preparavam nas fogueiras.
Inspirou fundo e olhou mais uma vez para Cuítsh. Era jóvem, tão jovem quanto
ela e por isso ainda não ia ás caçadas.
Org tinha-a trazido para ali trocando-a por outras mulheres da sua própria tribo como de resto era hábito no vale onde ela tinha nascido.
Chegara um dia ao acampamento onde vivera sempre com os pais. Com ele tantas mulheres como dedos tinha numa mão e após longa discussão e entrega de objectos e amuletos de parte a parte, sentiu-se de repente no meio do grupo juntamente com mais quatro
moças que com ela tinham crescido.
Quase de imediato Org pegara-lhe no braço e pelo cabelo rindo-se enquanto em agitação e no meio das lágrimas e gritos ela olhara numa súplica para a sua mãe que lhe acenara sem expressão alguma no rosto. O coração batera-lhe com violência e ao início, durante dias a fio, chorara no fundo da caverna sem comer nem beber nem, ao menos, levantar os olhos de entre os braços onde mergulhara a cabeça.

Org era um homem bastante mais velho. Chegara por ferozes disputas a chefe da
tribo e apresentava o corpo coberto de cicatrizes.
Brusco e dominador, não se lhe conheciam filhos.
Havia experimentado muitas mulheres, mantinha ainda algumas mas nunca alguma
lhe dera descendência.
Agora porém, desta vez, estava exultante.
Ata começara a mudar as formas do seu abdómen, tinha outro cheiro, e Org não
cabia em si de contente.
Nas últimas luas tinha aumentado a quantidade de caça trazida.
Presenteava-a com as melhores partes das peças abatidas, saía para trazer-lhe frutos de cheiro e sabores doces e preparara-lhe agora um recanto com peles e penas confortáveis.

Ata suspirou mais uma vez e olhou para Cuítsh, disfarçando um curto sinal por
entre as expressões veladas do rosto...

A lua enchia agora todo o vale a seus pés.
Bem lá ao fundo, por entre ramos da vegetação algo rasteira via-se por uma nesga a entrada da caverna.
Abrigados numa dobra do terreno e deitados ao lado um do outro no que restava dum abraço, Cuítsh e Ata, de corpos gratos e suados, miravam o infinito sob o céu estrelado, enquanto ela de mão sobre o ventre, afagava o Neolítico em suaves passagens de Eternidade e poesia...

Charlie

quinta-feira, 24 de abril de 2008

A Liberdade

A Liberdade.

Conheci a Liberdade pela altura do 25 de Abril de 1974.
Era na época militar por dever e durante algum tempo passei a sê-lo com gosto.
Olhámo-nos nos olhos, sem nada dizer, e de imediato despertou em nós a ponte que liga os corações apaixonados.
Ia no Metro para encontrar-me com amigos algures na zona de Entrecampos mas sai logo junto com ela nas Picoas.
Era uma rapariga mais jovem que eu, todo ela promessa de mulher.
Não lhe disse nada nem ela me perguntou o que fosse.
Entregámo-nos logo um ao outro e amámo-nos sem peias ou amarras, sem limites ou planos de futuro, com a sensação de termos atingido o momento definitivo das nossas existências.
Não estabelecemos compromissos nem alianças.
Não fizemos planos para o Futuro. Não lhe pedi juras de amor eterno nem lhe ofereci nada nem ela me deu mais em troca do que era uma dádiva mútua generosa e única. Bastava-me tão só te-la, a Liberdade.
Passeámos muitas vezes pelas ruas, e toda a gente olhava para nós. Sentia que todos amavam a Liberdade e que amavam o nosso amor.
O tempo passou.
O que era eterno e imutável passou a ser só um episódio das nossas vidas.
Deixei de vê-la.
Troquei a Liberdade por outras paixões que me vieram cruzar o caminho.
As paixões foram sempre inimigas da Liberdade...
Há tempos atrás voltei a vê-la.
Estava mais velha que eu.
Chorei ao reencontrar-me com ela.
Beijei-a e disse-lhe tudo o que me ia na alma.
Mas ela secou-me as lágrimas e disse-me que fora sempre assim através dos tempos.
A Liberdade será sempre a jovem generosa que trocamos por outros valores em maior ou menor grau.
Contou-me as peripécias destes últimos anos.
Do amor que dera a todos.
Dos que quiseram apropriar-se dela.
Dos que a maltrataram, dos que a quiseram acima de tudo e que por ela haviam dado a vida.
Olhei os seus olhos cansados e revi-me no reflexo do seu brilho apagado.
Olhámos um no outro durante uma eternidade enquanto ela afagava as minhas rugas.
Falámos um longo período, revendo rostos revivendo tempos...
Por fim disse-me que se iria embora.
Iria talvez sair do País.
Iria procurar um sítio onde estivessem ansiosos por ela.
Lá talvez voltasse a encontrar numa paragem de Autocarro ou num Metro um jovem que a amasse eternamente.
Despedi-me dela com um longo beijo.
Foi a última vez que vi a Liberdade....

Charlie


(Escrito em 2005)

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Carta de descoberta.


Descobri esta carta nos recantos de mim.
Sempre desejei escrevê-la e guardara este ensejo para o dia em que me apaixonasse verdadeiramente.
Sentia os anos passar.
A loucura dos meus anseios íntimos a transformar-se a pouco e pouco de ribeiro irrequieto em lago descansando na mansidão da rotina, sem que nunca tivesse experimentado a vertigem da queda de água em cascatas loucas de paixão e carregadas de biliões de sois capturados nos infinitos arco-iris que as gotas suspensas na leveza do amor inventam.

Mordi os lábios tanta vez olhando para a lua cheia, lendo os Poetas e perguntando-me:

- Onde estás tu paixão, que se me foge a vida e não te vivo. Serão estes poemas apenas devaneios loucos ou será que alguém conseguiu sobreviver alguma vez prenhe destas loucuras?-

Arrumava os poemas entre o pó dos amores frouxos de tempos idos.
Amarelos de tão esquecidos, e seguía com as perguntas-respostas que eu próprio criava:

  • Poderá um cego de nascença alguma vez descrever as cores? Seguir em mente as fluorescências do sol esvoaçados nos caprichos duma borboleta?
    Ou imaginar a profundidade infinita dum céu povoado de milhões de estrelas?
    Saberá ele, em resumo imaginar sequer o que é a escuridão?
    Ele que sempre a conheceu nem poderá jamais descrevê-la, para isso teria de sentir a ausência da luz, a angustia da sua falta. Ver todo o mundo desaparecer no negro breu, mas para que isso acontecesse teria de ter sentido primeiro o calor da luz no seu olhar... –


Depois, sem que o esperasse e vindo do nada surgiste tu, e eu nasci.
O céu abriu-se em ferida à tua passagem pela minha vida.
Senti como a paixão faz doer. Como a luz intensa cega a quem nunca viu.
Descobri a profundidade do espaço infinito e vazio nos minutos em que não estás.
Sei agora que toda a verdade chorada pelos os poetas fica aquém do que um peito sente.
Que amar é sim e só perdidamente.
Que só ao sangrar se vê o peso do sentimento.
Inspirei.
Abri a alma e descobri-te junto à esta carta.
Afinal estiveras sempre aí.
No fundo de mim junto a ela...


Charlie

Fevereiro 09, 2006

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Aquela tarde de Sábado...


Segunda-feira, Julho 24, 2006


Estava uma tarde de calor, dessas que apetecem quando os corpos fartos de Inverno se dão ao que ainda não é o castigo em que o sol se torna quando chega o pino do estio.
Estacionei o carro no parque do lado de lá da linha, quase sob a imensa estrutura de ferro que transforma os dois lados do rio num só e faz, das várias antigas povoações antes separadas pelo rio e pela História, uma só e imensa cidade.
Quem se aventura pelas docas de Alcântara em pleno dia sabe que não encontra o mundo que a noite se encarrega de inventar, mas nós, abraçados e com mais sol nos olhos que luz havia à beira rio, pouco nos importámos com isso. Todo o nosso envolvimento enchia o ar de magia e cor. Incendiávamos os néons e os sorrisos dos que de passagem nos miravam. Beijámo-nos com doçura e encanto enquanto sentíamos os nossos corpos a fundir-se no mesmo querer, no mesmo gozo de estarmos juntos, no mesmo desejo de parar o tempo para sempre na maré cheia deste mar em rio que era nosso.
- Gosto tanto de ti... - repetimos um para o outro, e rimos de seguida.
Fomos comer uma coisita qualquer, ligeira, umas saladas frias, sentados frente a frente de olhos nos olhos, vivendo um momento intenso que só os seres apaixonados sabem saborear. De mãos nas mãos rindo dos pequenos nadas que são tão importantes como as palavras: - Amo-te - que repetíamos a toda a hora, aumentando o brilho dos nossos olhos cada vez que o afirmávamos. Contámos pequenas coisas, segredos, que após tanto tempo de relacionamento, continuam a chegar aos nossos cais das descobertas onde descobrimos, em cada volta descoberta e confidenciada, que nos amamos mais e mais, numa viagem que só agora as nossas naus encetaram.
Levantámo-nos para passear um pouco. Abraçados pela cintura enquanto umas gotículas de suor se iam formando entre nós, a colar-nos e a selar os nossos corpos, tal como uma hora antes, esse suor tinha sido o mar onde navegáramos as almas em tempestade e entrega e onde seláramos com amor intenso um instante no infinito da eternidade.
Demos connosco já sob a sombra da imensa estrutura metálica, à beirinha, onde a terra-mulher se abre à penetração do mar quando a maré está de subida para, horas depois, ser o mar a receber no orgasmo, construído a dois, a torrente de água doce em espumas, Tágides em volúpias, num rio subitamente penetrante no mar-mulher imenso que se lhe abre.
Abraçámo-nos sentindo toda a força da natureza a tomar conta da nossa união, dos corpos em desejo e mergulhámos de olhos fechados no oceano que os nossos lábios davam ao mundo. Disse-lhe umas palavras quase sussurradas ao ouvido, quentes e íntimas, enquanto nos apertávamos mais e mais, ela mar e eu rio, eu tempestade em crescente e ela abrigo em fogo.
Riu-se sem abrir os olhos:
- Gosto da tua voz no meu ouvido e na minha vida...-
- A minha voz não existe, amor. A minha voz és tu quando respiras...-
Fez-se um pequeno silêncio e depois ela agarrou-se bem a mim e disse:
- Vamos... apetece-me fazer amor...-

Somos do mesmo mar

Terça-feira, Agosto 15, 2006

Somos do mesmo mar...

Olhei junto a ela para a vastidão da distância que cabia toda num olhar.
As almas unidas num só gozo nesse maravilhoso poema de sermos as asas que por cima de nós criavam as pontes abertas para o infinito.
Até onde a vista alcançava, fundindo-se no horizonte que abria a porta do mais além, inventávamos o Mundo. Com as cores dos nossos sorrisos, iluminado com o brilho que o sol tomava emprestado aos olhos, os teus e os meus, e com os sons das ondas que estalavam nos picos das cristas em línguas e lábios.

- Sabes que gosto cada dia mais de ti, meu amor? – Riu-se e encostou o corpo mais a mim, os cabelos negros junto à minha face que eu afagava em beijos suaves. Senti-lhe o sexo, desejoso e macio, e as formas e aromas do seu corpo de mulher a inebriar-me os sentidos. Meu Deus como eu a amo! Saibam que nunca amei um ser humano com a intensidade e querer com que me entrego a ela, com a vontade infinita de possui-la uma e outra vez, sem cansaço, sem espera. Com uma dedicação completa e desejo de mais e mais amor que me surpreenderiam não fora a sensação única de ter descoberto naquela mulher a minha predestinação como homem. Enquanto nos encostávamos bem um ao outro num mesmo abraço firme perdidos na enorme imensidão do amor, num só desejo de nunca mais sermos encontrados, deixava o espírito voar pela paisagem infinita que do cimo da falésia conquistava todo o universo.
Tenho uma relação com o mar que me vem nos genes. Nasci junto ao mar, e foi o mar o meu primeiro contacto com o infinito e com o sonho.
Lembro-me da primeira impressão que estreou o álbum interior das minhas lembranças duradouras. Há factores que nos ficam na memória com uma força tremenda. Foi o que decorreu dum acontecimento numa manhã, era eu então ainda criança de meses.
Pus-me de pé pela primeira vez na cama e pela janela aberta, descobri a imensidão do mar. Estive, sei lá quanto tempo, fitando o azul-turquesa transparente desses mares quentes do sul que se diluíam na distância em tons progressivamente mais carregados e que recortavam depois, numa linha fina, a clareza novamente azul em luz do céu.
Não guardo memórias de sons, de rostos, de cheiros ou gostos dessa idade. Nem me lembro, dessa altura da vida, sequer muito nitidamente do rosto da minha mãe, nem de coisas que aconteceram antes ou depois. Só me lembro desse mar imenso que trago na minha alma desde então e que fez de mim um solitário a navegar na vida procurando a outra alma que estivesse navegando sob a profundeza do mesmo olhar...
Olhei para ela e disse-lhe isso mesmo. Os nossos olhares gémeos, a emoção do infinito sonho lavado em espuma e azul. Beijámo-nos ternamente no alto da falésia, num pico do Mundo. Depois peguei-a ao colo e ela pôs-me os braços à volta do pescoço.
- O meu pai era marinheiro…- Segredou-me ao ouvido enquanto os sons da sua voz se misturavam com o vento de sabor a sal na sinfonia das cordas e velâmes que os fios dos seus cabelos infinitavam.
Encostámo-nos bem um ao outro, num abraço sem fim, de olhos fechados e abertos para o interior, para a mesma alma, para o mesmo desejo.
Mergulhámos no mar alto e amámo-nos toda a tarde, uma e outra vez na viagem deste veleiro sem fim rumo à Eternidade. Com a força com que o mar se entrega em orgasmos infindos contra os rochedos, onda após onda, maré após maré, num naufrágio contínuo, num eterno renascer…


sábado, 19 de maio de 2007

Todo o mar num conta-gotas

Terça-feira, Junho 20, 2006

carta aqui deixada por charlie

Descobri-lhe a pouco e pouco os ritmos do corpo, os sons que a faziam estremecer, os pequenos gestos, quase nadas, de onde nasciam os novos mundos que ela me devolvia acrescentados de paisagens em permanente mutação.
Sempre virgens.
Novas sensações que ela sabia acabadas de nascer do mais profundo de mim, e onde ela se sabia raínha e senhora.



















Fizemos amor.
Todo o amor do mundo.
Todo o amor que me transbordava da alma e que nunca encontrara destino; meros fantasmas nos apogeus dos orgasmos e gozo.
Depois, já em descanso ficámos deitados olhando com deleite a nossa nudez, as nossas coisas que assumiam aos nossos dedos o papel de pequenas brincadeiras:
- "...Tens aqui um sinal meu anjo...e tu. O que é isto? "...-
Beijámo-nos de olhos fechados sentindo novamente todo o corpo em efervescência.
E passámos as nossas línguas pelos recantos secretos onde as almas espreitam ao cimo da pele.
E rimo-nos...
Rimo-nos como se quiséssemos esquecer as lágrimas amargas que choraríamos na hora da despedida e nas semanas de ausência que se seguiriam.
Mas nesse instante, nesse mesmo instante em que nos entregávamos, todo o mundo acabava, todo o tempo ficava suspenso até ao momento em que um ponteiro aziago nos lembrava que o mundo não espera pelos que se atrevem a desafiar e permanecer nos reinos dos Deuses....

Charlie

Declaração de Amor.

Segunda-feira, Maio 08, 2006

carta aqui deixada por charlie

Esta carta que te escrevo, é a carta que sempre existiu na minha alma.
Pronta a sair no dia em que te encontrasse numa encruzilhada da vida, em que o destino nos pusesse a pisar o mesmo trilho.
Como aconteceu agora, sem anunciar, sem esperar.
Foste sempre a outra metada da minha alma, que eu via sem rosto quando te procurei em vão, perdido nas tempestades das intensidades íntimas, vageando de velas em farrapos, afundando-me em naufrágios, na ilusão dos corpos de que já não me lembro, e que me deixavam vazio, sem te encontrar e sem mais saber de mim.
Depois, surgiste...Assim de surpresa, no meio dumas entrelinhas, como nesgas de sol que nos surpreendem o rosto por entre as folhagens espessas que nos roubam a esperança do azul, mas que eu inventava e reinventava em letras negras da cor do sangue.
Fez-se luz!
Fizemos acontecer o milagre e tocámo-nos.
Olhámo-nos nos olhos, mergulhámos nos nossos mares, e nesse mesmo instante soube que seria teu para sempre.
Nesse exacto momento entre duas brilhantes estrelas que eu bebi do teu rosto num beijo, entraste-me na alma e disseste:- Sou tua..-
Selámos o nosso amor com o sal dos nossos olhos, com o gosto dos nossos lábios e com o calor dos nossos corpos.
Se escrevo estas linhas agora e não antes, não é para que saibas que te amo, nem para me rearfirmares o teu amor. Isso sentimos os dois desde o primeiro instante.
Todos os poetas cantaram o amor, mas só quem o sente e o vive lhe entende o sentido, lhe sabe a dor com que o fogo corta o peito, o doce da entrega e o amargo que castiga as almas com as ausências.
Estas linhas simples são apenas um grito ao mundo, para que ele desperte e durante uma breve paragem do tempo se dê conta que existimos.Um anúncio do nosso amor!Para que o sol espere apenas um pouco antes de entrar no mar sem fim e ilumine com fogo os areais da nossa ilha. Para que o beijo que trocarmos de pés enterrados na areia molhada tenha todo o sabor ao mar que une as nossas almas.
E assim, de mentes claras e corpos abertos peçamos aos Deuses em oferenda que recebam o veleiro onde queremos partir para a viagem das nossas vidas.
A viagem do amor eterno, tendo como única frase trocada entre nós a expressão:
- Amo-te -....

Charlie

Carta dum apaixonado.

Segunda-feira, Janeiro 02, 2006

carta aqui deixada por charlie

Em primeiro lugar esta carta é escrita sem a mínima intenção de ser enviada.
Desde o primeiro instante em que te vi, toda a minha vida se alterou.
Cruzo-me contigo e tenho a alma cheia de poemas para dizer-te mas da minha boca não sai mais que um mero grunhido. A minha face, que ensaio ao espelho até me encandear com o sol que reflecte, não exprime coisa melhor um esgar idiota bem o sei.
Vejo isso nos teus olhos quando me devolves rapidamente o cumprimento e segues flutuando no teu rumo.
Sinto-me o Gregor Samsa.
Um mísero insecto.
Um prisioneiro ridículo do pesadelo de Kafka.
De carapaça rígida, perdida neste corpo incapaz de moldar a expressão à intensidade do tormento em flor que lhe consome a alma.
Sempre te procurei nas outras mulheres que se encantavam nas minhas palavras doces. Nos meus gestos suaves e no embalar divino com que as despia em poemas soltos.
Via-lhes o sol no olhar enquanto por dentro a minha alma sofria por não encontrar-te nos lábios com as quais elas se abriam ao amor por mim sonhado, nos corpos perdidos no infinito dos paraísos que lhes fazia viver ao ritmo da minha íntima infinita infelicidade.
Agora que o destino nos colocou no mesmo caminho, vejo-me impotente para te abordar e para mostrar a verdade de mim que toda a vida fingi. Sou um triste espectador de mim mesmo. Numa peça ensaiada vezes sem fim. Representada infinitamente até à perfeição mais perfeita, mas que teima em ficar muda no palco do grande existir.
Neste momento vou lendo em voz alta à medida que escrevo. Junto a mim está alguém lavada em lágrimas. Disse-lhe tudo o que queria dizer-te e ela veio comigo a caminho do Éden. Procurei o teu infinito no corpo dela. Apenas a aflorei e ficou-me o vazio de sempre.
No fundo sei que também tu vives por encontrar o além que vive nas minhas palavras sonhadas. Por encontrar esse que estás longe de supor por trás da farsa que te mostro. Do nada que vês e que esconde o tudo por que anseias.
Descobri que sou o Inferno.
O meu reino é o sofrer.
Descobri isso ainda há pouco. Sofro por não ter-te e transmito a dor no vazio que deixo às que se me entregam na ilusão da eternidade.
Sofro ainda mais ao ver-me iluminado pela tua luz e não ser capaz de sair das trevas, e iluminar-te ainda mais com a minha chama interior.
Achei-me assim Senhor neste eterno desespero.
Sei agora que me sinto bem no sofrimento de que é feita a minha vida.
Amanhã irei encontrar-te outra vez.
À hora do costume.
Dar-te ei os bons dias com a última expressão que mostraria a uma mulher.
Rir-te às com uma fugidia resposta.
Eu ficarei ardendo em renovadas chamas de miséria e sofrimento.
Elas são o conforto do meu lar...

Charlie