Estou a fazer uma curta pausa.
Não sei há quantas horas caminho por esta praia sem fim.
Tenho os olhos tão fechados pela intensidade do sol e o branco da areia, que me doem todos os músculos do rosto pelo esforço feito ao confiná-los a uma linha atrás da qual observo o azul profundo desse apelo determinante do meu ser.
O peito aspira os intensos aromas trazidos pelo vento; ora com a frescura do mar a desfazer-se a toda a hora em espumas, ora tórrido e ressequido, vindo da terra com os seus cheiros distantes de erva seca e folhagens em penitência.
Não sei bem quem sou nem onde estou, para dizer a verdade, não faço sequer qualquer ideia pois desde que dei por mim neste sitio deitado no areal debaixo dum céu coberto de estrelas, ainda não vi uma alma que fosse.
Sob a noite que clareava fui observando por entre as neblinas - que rapidamente se iam esvanecendo à medida que a luz crescia - a lonjura ora para um lado ora para outro; para me situar, para decidir qual o rumo a tomar embora, então como agora, se assuma algo difícil fixar referências neste areal tão igual e extenso que se perde de vista seja qual for a direcção que os olhos sigam.
Finalmente decidi-me.
Encetei esta caminhada na certeza de ter que chegar a um lugar qualquer, e munido do meu propósito firme, andei desde os primeiros raios de sol - mal estes espreitaram por trás do horizonte - até à quase exaustão, quando surgiu de súbito uma esperança no caminhar que a certa altura ameaçava ser sem sentido.
Senti-me então animar e acelerei o passo. Tinha a certeza de estar no bom caminho e confiante continuei, já com mais vontade, mais querença, diria, mais certeza.
Andei sem medida nem tempo, certo de estar próximo de chegar a alguma parte, fosse qual fosse, embora o areal continuasse tão extenso nessa altura como horas atrás quando tomara conta deste empreendimento.
Continuei a andar, sem noção precisa de espaço nem de tempo, num penoso continuar de passo após passo, ora todo querer, ora arrastando o soçobrante cansaço, rumo fixo no horizonte.
Depois, já esgotado, senti por breves instantes a invasão amarga do desânimo, mas quis o Destino que algo de extraordinário voltasse a acontecer e por isso fiz esta pausa, para retemperar forças e escrever estas linhas.
Cheguei a este ponto onde descanso e estou imerso numa profunda alegria, um contentamento tão grande que nem encontro palavras para exprimir.
Toda uma enorme euforia tomou conta de mim, pois sinto estar a chegar ao fim desta caminhada de horas intermináveis e que ainda há minutos ameaçava ser infinita.
Levanto-me exultante e todo eu sorrio de alegria.
Agora que já descansei vou retomar o caminho que resta.
É possível que não esteja já longe de chegar a algum lado pois às pegadas que eu encontrei na praia - depois de muito andar- e que ando a seguir há horas, se juntaram outras.
Devo estar próximo, muito próximo...
Charlie
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Carta dum caminhante
sábado, 8 de março de 2008
Carta dum vagabundo
Escrevo esta carta como último vestígio de mim mesmo, última pegada na terra antes de levantar-me na leveza e voo do anonimato.
Do coração sinto as batidas em cada passo com que os meus pés descalços pisam a terra sob a qual ele está enterrado.
Vestido de vagabundo, poderei olhar na profundidade do olhar de cada ser humano sem que tenha de suportar em retorno, a cobiça dos seus olhares.
Das riquezas do mundo, ao abdicar delas, serão todas do que sempre foram; do mundo e não das mãos. Essas que num momento que é a vida, avidamente as seguram na ilusão de que a imortalidade dos seus valores lhes confere, pela sua temporária posse, essa mesma qualidade.
Deixarei com alívio esse mundo de fantasia com que todos se iludem e fazem do viver uma peça tragico-cómica mal representada, em que todos os actores se espreitam e fingem acreditar em si mesmos.
Nos meus bolsos não haverá mais nada a não ser o ar para que eu ali possa caber todo em dedos quando o mundo me encher com a generosidade dos elementos.
Vou partir em breve para junto do mar onde vagabundearei livre de obrigações, de compromissos e do peso das invejas desmedidas de que está livre quem já não existe.Palmilharei as veredas de prata e de fogo, os murmúrios em orvalhos nos lábios e as espumas estremecedoras das infinitas fúrias.
E serei eu e não este personagem com nome que não escolhi. Serei da areia, o grão livre.
Do mar, o sal saboreado na ponta da língua.
E serei por do sol e o beijo da Lua em flor; o infinito verso nu mergulhado na transparência dum corpo feito universo...
Charlie
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Poemas do Velho da Ilha
Sentado num tronco seco, todo branco que já conhecera anos de naufrágio e depois dera toda a cor ao Sol ao dar á costa, o velho riscava rabiscos na areia.
Riscava e tornava a riscar passando com o pé por cima de tudo e voltando a riscar nos mesmos sítios com outros desenhos herméticos e abstractos.
Ria-se para eles e fechava os olhos falando baixinho. Recitava alto, voltava a abrir os olhos e voltava a riscar na areia.
- O que fazes? - Perguntou o rapaz recém-chegado que ficara olhando para ele com curiosidade.
- Escrevo poemas. - Respondeu o ancião.
- Mas poemas? Com riscos que não são letras nem desenhos?...- Fez-se uma pausa, e depois o velho continuou:
- Não sei ler. E cada traço destes é uma ideia, um mundo que eu construo no meu interior. Estás a ver este traço? É uma ilha. A minha ilha. O que eu daria para poder ir até à ilha e voltar a estar com ela…
- Mas isso é fácil amigo. – Interveio o jovem. – É só ir ali pela ponte…. - O ancião nem olhou na direcção que o jovem apontava. Fez mais uns traços na areia e sem levantar os olhos disse:
- A ilha que tu vês já não existe. A ponte que lhe fizeram é uma lança que a despejou da vida que tinha quando eu a visitava. Tinha de ir a nado na maré baixa de banco de areia em banco de areia, e lá moravam os espíritos que sangraram até à morte. – Agora o rapaz olhava extasiado para ele.
- Conte como era a ilha no seu tempo…-
O ancião olhou para o jovem e disse-lhe com ar grave:
- Não te posso contar o sítio onde fui feliz por instantes. A felicidade é feita só de instantes breves que ficam a morar no nosso espírito eternamente. Só assim a lembra-las somos felizes durante a vida e repetimos os momentos. Mas a ponte sangrou os meus instantes e esvaziou a eternidade dos tempos. Como queres que te conte se estou vazio?....-
O jovem olhou para a ilha e para a ponte e sentou-se junto ao velho.
- Por isso faz poemas na areia ….. -
- Sim – disse o Ancião. – Faço poemas com a eternidade do meu pé ao passar por cima deles. São apenas instantes sem eternidade, essa foi-me tirada, nada mais me lembra nada mais me resta senão ir em frente sem olhar para trás navegando nestes poemas que se desfazem como os rastos que a minha alma faz na água onde procura a ilha num futuro que já não existe…..-
E dizendo isto ajeitou o pé e apagou o jovem e o dialogo que tinha estado a riscar com ele na areia da praia….
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Ponto de vigia...
Recordações...
Todos os dias, com a mesma força que sentia da tuapresença, deixava que o mar me tomasse.
Primeiro apenas um vestígio, um mero salpico que ficava em pequenas esferas presas no que sentia serem pêlos dos braços, pele do rosto e comissuras de lábios.
Era então que fechava os olhos e que te saboreava. Língua a passar lentamente pelo lábio superior, recolhendo memórias dos teus sabores.
Mas eram apenas isso; memórias.
Há coisas que vivem em nós com a força da verdade sendo apenas ideias e lembranças vagas.
Sensações que só existem nos nossos interiores imensos.
Senti a pouco o mar encharcando os pés e eras tu que me agarravas pelos tornozelos e me puxavas para ti, enquanto me ia enterrando mais e mais na areia à medida que novamente e em ondas mansas, me lambias nos teus fluxos e refluxos.
Senti-te no sol que me mordia.
Como sempre morderas, olhos escondidos e felinos atrás do vidro escuro dos óculos de sol, emboscando o olhar assaltante e desejoso.
Por um instante, num breve relampejo de tempo, senti-te dentro de mim. Calores e aromas do teu poema em fêmea.
Relevos e saliências em perfeita união com o meu corpo...
Abri o peito em som num breve cântico à minha união com a natureza.
Uma nota apenas que me fez estremecer no puro gozo de existir.
Só um grito curto a prolongar-se no ecoar nas rochas que estavam por trás de mim, misturando-se em sinfonia com o coro quase rotineiro da terra e mar em negociação permanente...
Inspirei num sorvo profundo todo o mar e dei um pequenopasso para me equilibrar.
Depois abri os olhos e regressei ao meu ponto de vigia.
Abri as asas e voei para o alto do mastro onde te observava na
praia desde o dia em dera por mim renascido em gaivota...
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
A ilha...

Pisei, olhando para a distância, a orla de areia que o mar lacrimejava.
Senti os pés húmidos e escutei o borbulhar suave da breve espuma que escorria entre a multidão de seres minúsculos que habitam o universo infindo das partículas de areia.
Aqui e ali, podia adivinhá-los a esconderem-se rapidamente e para sempre em segurança até que viesse a próxima vaga.
A Lua estendia o seu eterno mar de prata com o que inundava as praias das almas
que sabem pertencer-lhe.
Eu sei que há pessoas que são pertença dela!
Sinto-as meus iguais quando estão junto a mim.
Todo o meu corpo fica presa das ondas que emanam dos seus mares.
Não preciso que digam nada.
Que me olhem, ou que sorriam.
Basta existirem próximo de mim
Sinto-lhes o bater do coração dentro do meu peito, e faz-se me um nó na
garganta
Sim porque eu sou um ser da Lua...
Achei uma ilha!
A minha ilha fica mesmo ali quando a sua Mãe sai parida do mar, subindo aos
poucos no céu.Nunca repararam?
Hão de ver nos dias em que já próximo da Lua Cheia surge do nada rente ao horizonte.
Se olharem com um pouco de atenção verão no colo da Mãe, num suave embalo, o
perfil das palmeiras e coqueiros, encimando um peito de mulher.
É a minha ilha!
Quis sempre visita-la. Penetro no mar e nado para ela até ficar sem forças.
Deixo afogar-me.
Já estive quase a chegar lá e guardo na minha boca o sabor das águas que
banham os seus lábios...
Acordo sempre com os pés a pisar a areia e dou com a Lua já alta.
É sempre ela que me salva e me põe de volta neste areal imenso. A perder de
vista...
Este areal sem fim antes não existia.Era uma extensão de rochas onde eu era uma fortaleza inabalável.
Depois....
Depois descobri a ilha rente à lua ás portas do horizonte e chorei a
distância em mares e oceanos.
Agora tudo secou e dos meus olhos só saem grãos de saudades duma ilha onde
nunca estive...
Sentei-me um pouco a pensar em tudo e chorei um castelo de areia.
Uma onda veio e puxou-a para dentro de si.
Para o mar das lágrimas para onde escorrem os castelos das saudades...
Charlie
sábado, 22 de setembro de 2007
Folha de Diário dum Viajante

Estive agora mesmo sondando a infinita linha que separa o mar dos céus. Ali nesse ponto do convés onde a proa perfura o horizonte em investidas sucessivas e espalha os seus avanços em espumas a desfazer-se nos salpicos de lábios que o sol tem vindo a salgar no decurso de toda uma vida de mar.
Durante um instante fechei os olhos e revi-me na alegria das ilhas encontradas, na miséria e solidão dos naufrágios, no desespero da viagem perdida e no alívio final do resgate. Muitas vezes a nado, numa fuga suicida para a frente, a caminho do abismo que todos sabemos existir onde o mar acaba.
E passei todas as vezes por esse portal, por onde apenas se passa uma vez, que não tem retorno e que termina na vertigem da queda miserável onde morro e renasço em voo no grito da gaivota de céu que me acorda novamente da sesta, já a bordo de novo navio...
Agora, sentado à mesa de caneta na mão, saboreio o amargo duma bebida forte que detesto e faço uma careta de desagrado.
- Porque é que temos esta incontornável sina fazer as coisas erradas mesmo sabendo o amargo que nos deixam? Porquê este precisar de querer sempre de engolir todo o mar?
-Não nos basta com o sabe-lo salgado... -
Aborrece-me este mar chão e calmo. Quero a revolta das suas ondas ansiosas por desfazer o meu corpo, os seus ventos a rasgar as velas, a aflição de sentir nas tábuas a ranger e mastros a vergar, toda a tempestade que é a minha alma feita da teia de cordames e fogos fátuos de ilhas flutuantes avistadas nas reverberações cálidas do ar.
Já avistei muitas dessas ilhas, quase todos os homens do mar as avistaram, alguns sem nunca terem visto o mar, outros apenas mar e nunca as ilhas. Nenhum homem jamais lhes pisou o solo por mais ilhas onde tenha naufragado, iludidos com a sua descoberta.
São ilhas afortunadas, que se soltam dos fundos, entram nos sonhos e se desfazem em lágrimas e mar quando acordamos.
A minha sina é procurá-las e avistá-las sem as encontrar, numa viagem que passa, possui-las não possuindo e escutá-las não escutando, ser eterno viajante ansioso por nunca encontrar mais do que a Pessoana procura...
Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.
E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.
São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só o mar.
Fernando Pessoa
..Pouso a caneta e volto ao convés de copo na mão.
A viagem continua....
Charlie
segunda-feira, 23 de julho de 2007
Carta dum recém chegado.

Escrevo-vos para dizer que cheguei.
Mal pus os olhos na rua larga cheia de sol, de casas quase todas de um ou dois pisos, com árvores ainda pequenas ladeadas de suportes e flores e onde algumas pessoas passeavam olhando para as montras, soube que este era o meu destino final.
Respiro bem fundo os aromas deste sítio e por um instante fecho os olhos.
Quero ter bem gravado na retina esta imagem para sempre e descobri-la sempre nova ao abrir do olhar.
Estou cá já há três dias.
Desta vez não farei como das outras anteriores!
Nos diferentes lugares onde vivi, percorri os sorrisos de todas as travessas, todas as ruas e largos.
Parei nos cafés e praças.
Conheci as pessoas uma a uma.
Apaixonei-me pelas pernas e olhos das mulheres e os seus corpos em sabores de silêncio e lençóis.
Bebi com os seus pais, irmãos, maridos e namorados.
Ouvi as histórias de uns e de outros. Tomei partido pelas misérias escondidas que os separavam e enterrei todo encanto das ruas largas dos dias das descobertas nas vielas mal cheirosas, tortuosas e escuras, que me haviam escapado nesses primeiros tempos.
Saí sempre enjoado e desencantado. Embrenhado nas desavenças, desavindo com muitos que me haviam devolvido os sorrisos da chegada, e desejando nunca te-los encontrado.
Agora, desta vez, tudo será diferente; tudo será sempre o esplendor do primeiro dia!
Jamais sairei desta rua principal.
Não quero saber se é uma cidade ou vila, aldeia ou um sonho. Nem sei bem onde estou, mas não irei espreitar no mapa os limites dos seus segredos.
De todos os rostos que se cruzarem com o meu, nem um só traço irei decorar.
Darei os bons dias às senhoras e voltar-me ei para mirar-lhes as pernas sem ter fixado um só pormenor dos seus sorrisos.
Não irei entrar nos cafés a perguntar pelas novidades nem darei o meu nome a ninguém.
Desta vez serei só o sol a passear-se em brilhos pela calçada a quem ninguém faz perguntas.
Desta vez serei só eu e o meu encanto.
Desta vez bastar-me á fechar os olhos neste quarto que tomei na pensão, limpa e de esplendores nas floreiras das janelas, cujo nome fiz por nem olhar e pertencente a uma mulher linda que se chama Luisa e que é divorciada.

Tem um filho ainda menor e o seu ex-marido é um sacana que quer vender a pensão para ficar com metade do dinheiro.
Ela já falou com o advogado do escritório ao fundo da rua principal, mas de quem está desconfiada estar feito com o seu ex.
O ex acusa-a de ter um namorado, um que tem um café mesmo ao meio da rua, mas ela diz que é livre de relacionar-se com quem quiser.
Esta manhã quando ia a descer, vi uma mulher mais velha a chama-la de puta e a insultá-la de andar a querer a desgraça do filho que precisa do dinheiro da venda da pensão para refazer a vida e que ainda antes que o tribunal decida, ela mesmo lhe tratará da saúde.
Calou-se quando me viu e saiu à pressa.
Dei os bons dias e saí para a luz do dia enquanto, já na rua, ainda ouvi o miúdo a perguntar à mãe o porquê da avó andar aos gritos...
sábado, 23 de junho de 2007
Carta dentro duma garrafa.

Voltou a acontecer.
Sem que eu tivesse feito nada para que isso sucedesse, pelo contrário, - evitando os meus pensamentos na hora de deitar-me - tudo se repetiu uma vez mais.
Incessantemente e de maneira constante, noite após noite, de forma contínua e ligada em episódios.
Tenho este sonho sempre igual há tantos anos que já nem me lembro bem do primeiro dia em que comecei a sonhá-lo.
Sonho que estou só.
Completamente só numa ilha que também seria solitária se não fosse ter sido eu a naufragar ao largo dela, na ocasião em que começaram os meus pesadelos, e ser assim o seu único habitante.
Durante o dia estou bem, nas minhas tarefas diárias, junto aos meus amigos e à mulher que amo com a mesma paixão e entrega há mais de trinta anos. Mas mal fecho os olhos eis que desperto nesta ilha onde me encontro agora a escrever-vos.
Na manhã - cuja data não me recordo - em que sonhei ter naufragado, íamos todos juntos atravessando o Pacífico no iate que eu tinha nessa altura.
Lembro-me de tal forma de tudo o que aconteceu neste meu sonho como se tivesse sonhado hoje.
Tinha estado com ela na proa olhando para esta ilha que agora os meus sonhos aprisionaram. Beijávamo-nos e o sabor da sua pele sabia-me ao sal do mar que eu amo desde criança e que agora é o meu carcereiro. Passei-lhe as mãos pelos cabelos, dedos a deslizar suavemente, descendo pelas ondas do nosso querer. Naveguei língua e boca pelo seu pescoço e saboreei o mar ainda mais intensamente. Abraçámo-nos e senti-a toda mulher encostada a mim. Depois descemos para a cabine enquanto eles se riam com os seus copos de Martini nas mãos e falavam uns com os outros. Disse para tomarem conta do leme e que se aproximassem com cuidado da ilha.
Depois..
Só me lembro da sua nudez e corpo quente, tão desejoso quanto o meu e o tremendo encontrão que dei com a cabeça quando o barco encalhou numa enorme pedra submersa e se partiu em dois.
Dei acordo de mim já na areia recheada de destroços e dos corpos de dois dos meus amigos e da minha mulher.
Sepultei-os a pouca distância da praia e visito-os todos os dias.
Meu Deus! Cada vez que relembro esta parte do meu primeiro pesadelo fico numa tremenda angústia pese embora a distância imensa levada no tempo.
Depois vem a rotina neste sonho sempre igual. Acrescento mais um traço; mais um dia, numa tábua dos destroços com que fiz a cabana. Dou voltas pela ilha solitária, colho frutos, pesco qualquer coisa, ponho umas flores nas campas e subo à nascente mais para o interior para encher uma vasilha com água.
Já tenho falado à minha mulher no tormento que à noite me assola. Ela ri-se com o mesmo sorriso que não envelheceu nem um dia decorridos que são mais de três décadas. Bem ao contrário do que se passa neste sonho em que tudo ganhou o cinzento de trinta e muitos anos aos quais quase perdi o conto, apesar das marcas diárias com que colecciono os dias passados.
O meu cabelo está enorme, tenho umas barbas até à cintura, estou desdentado e extremamente magro, e vi bem o meu mísero estado, de rugas profundas e roupas em farrapos, quando me pus a reparar na figura reflectida na superfície da água da vasilha.
Estou velho, tenho envelhecido dia após dia dentro deste pesadelo que vivo intensamente e que não me larga.

Depois o cansaço do sonho vence-me e acordo com júbilo longe desta ilha, junto ao seu corpo de mulher entrelaçado com o meu sob os mesmos lençóis.
Fazemos amor, damos duche juntos e vejo ao espelho como estou jovem...
Ai como gostaria que me libertassem desta prisão que me agarra mal os meus olhos se fecham. Por isso escrevo esta carta. Vou encerrá-la dentro desta garrafa e atirá-la ao oceano..
Que bons ventos e marés a levem onde outros sonhos me façam noutro sonho despertar...
sexta-feira, 8 de junho de 2007
Carta dum moribundo…
Escrevo estas linhas com a absoluta sensação de estar a viver os últimos instantes do sopro vital que o Criador insuflou nestes restos eternos que a Mãe Terra há-de absorver e transformar em outras formas de vida no seio do seu generoso e quente ventre materno.
Ah, como me dói todo o corpo!
Não é uma dor localizada em lado algum; é antes o esvair lento do meu interior a espalhar-se pelo espaço, ferindo todos os poros à medida que vai rompendo a fina barreira de mim mesmo e diluindo-se em nada, nos nadas de que são feitos os indefinidos e infinitos mundos etéreos dos espíritos.

Está cá um destes frios!...
Sinto os arrepios a vir dentro de mim, do interior mais profundo e insondável desde onde a alma alimenta a seiva dos ossos…
Ai se soubessem como me custa a respirar…….
Mas vou devagar. Ainda tenho que acabar estas linhas e sinto-me fraco.
Lembro-me como já passei por situações semelhantes, em que todo o meu corpo se ria da torpeza da senhora da foice vestida de negro. Ri-me quando me levaram para o Hospital, a esvair-me em sangue depois de ter sido atingido por uma bala quase à queima-roupa. Mas todo o meu corpo oferecia vida e sangue! E ri-me da ferida grave com a mesma leveza com que mergulhava nos corpos das putas uma e outra vez sem vacilar, em orgias desregradas, sem que alguma vez o meu corpo se sentisse e me traísse dos exageros. Agora é diferente, mas nessa altura?!... Todo eu era tesão à flor da pele e fontanário de vida e sangue inesgotáveis.
Voltou a acontecer mais tarde, voltei a ver a senhora da foice noutras rixas e acidentes, e o escarnecer típico e arrogante da imortalidade juvenil sobrepôs-se sempre ao tétrico da sua presença.
Depois conheci-te. Sem esperar, numa altura em que eu, sentado debaixo da macieira, observando o sol em declínio a preparar o poiso no horizonte, descansava o corpo de guerreiro e a guerra se passava em mim na queda contínua das cascatas de ideias.
Lembro-me das flores que te ofereci…
- Um dia ofereces-me flores? – Perguntastes-me uma vez em tom de desejo, e eu
respondi-te com o brilho do fogo na alma, que te daria um jardim.
Enchi-te o gabinete de flores. Lembras-te? Eram às dezenas e dezenas de ramos e arranjos de todas as espécies. De tal forma exagerada que deixou de haver lugar para mais nada. Eu fui sempre assim. Enchi-te a vida de tal maneira, que ficaste sem espaço para ti mesma. Telefonaste-me num rir nervoso, um misto de ternura e desconforto:
- Não existes! - Disseras. Hehehe....
Rio-me e tusso num esgar. Sinto-me a acabar, ai....
A seguir, morreste. Assim de repente. Num piscar de olhos quando me deixei afrouxar num momento fugaz do meu cansaço. Depois da praia nos ter servido de toalha onde comíamos o mar em garfadas de sol e saliva. Depois das horas passados juntos nos terem sabido apenas a minutos. Do último beijo do - Até já, - ter o sabor intenso ao sal da Saudade de séculos. Morreste sem que nunca mais te tivesse visto. A morte dói mais quando nos brinda com a ausência dum corpo a quem possamos abraçar na despedida.
Ainda te procurei meses a fio, esquecendo que eras apenas um fantasma, o lado de lá dum céu sem luar. Um mero rasgão de dor que fica quando nos roubam uma jóia e no seu lugar fica um buraco no peito.
Agora que me sinto finar, nem me dói mais a perda. Sei que para onde vou, não existem memórias e que renascerei livre de mim e do peso que arrasto.
Toc-toc-toc....
Batem à porta. Nem preciso de perguntar quem aí vem. Sei que é ela, a senhora da foice, de negro vestida. A porta range ao de leve e uma estranha luz invade muito docemente o meu quarto de homem só. O vulto de quem escarneci tanta vez pára junto aos pés da cama. Estou calmo, muito calmo e miro-a com a visão turva e semicerrada duma grande sensação de paz.
Lentamente afasta o capuz que lhe esconde o rosto e a pouco e pouco um tremor intenso toma-me o corpo à medida que se vai descobrindo. Depois, com os olhos tomados de espanto olho e volto a olhar para querer acreditar no que não quero crer. Docemente a mão estica-se na minha direcção e caio na verdade quando a voz que diz: - Vem - é a mesma que em tempos me dissera a rir que eu não existia quando lhe enchera a vida de flores...
sábado, 19 de maio de 2007
Carta do fim do mundo
carta aqui deixada por charlie
Envio-vos esta carta do fim do mundo.
Já nem me lembro de quando comecei o percurso e a procura do que veio a ser o objectivo da minha vida.
Mas que importância tem o tempo quando a vida só faz sentido perseguindo um sonho?
Encontrei finalmente o portal , e estou prestes a entrar.
Estou de repente a ver nos rostos de alguns um sobrolho levantado. Também os compreendo. Talvez melhor que possam pensar. Já tenho a garrafa preparado para meter esta carta dentro. Mal acabe de beber o último trago desta última do carregamento que trouxe para a viagem, farei o ritual. Com metade do corpo já dentro da passagem para o outro lado, deixarei um braço de fora, com a garrafa rolhada servindo de sarcófago desta missiva. Então solenemente olharei o sol e darei o salto para a Eternidade atirando a garrafa para o mundo onde vós estais condenados a viver.
Alguém há-de encontrar estas linhas a a boiar por aí.
Eu ficarei aqui, do outro lado do salto.
O fim do mundo fica curiosamente onde começa.
Tudo tem um princípio, tudo tem um fim mas quem encontra as origens de tudo vive para sempre.
Após tantos anos de viagem por todos os mares do mundo, de tantos naufrágios e desesperos, achei o que parecia ser uma fantasia mera de marinheiros tresloucados e supersticiosos.Mas a persistência é tudo quando se tem um objectivo na vida.
Levei comigo todos os mapas antigos. Cópias de viagens por um mundo que era infinitamente quadrado e plano.
Desconfiei que estava próximo há uma semana apenas. Olhei para o sol numa manhã e vi como ele nascia do outro lado do mar. Em como ele se punha onde deveria nascer. E como a lua fugia das minhas mãos, escorregadia, e como de noite as estrelas me perseguiam pela cabine e entravam comigo para os meus sonhos.
Da primeira vez ainda me assustei e corria com elas para fora do barco-Vão-se embora para a capa da noite- gritava-lhes eu. Mas depois compreendi de repente tudo e gritei a rir. Eram os sinais de que estava próximo. Atirei gritos de alegria ao ar, tão contente que estava! Consultei os mapas mais uma vez e fiz umas contas. Estava já a poucos metros.
Ali onde ninguém desconfia há um espaço invisível pouco maior que o corpo dum homem.É a porta de passagem. Quase nem se nota a não ser que se seja iniciado nestes segredos.Logo a seguir o mundo acaba e começa o precipício para onde as águas caiem.
Estou ansioso e vou fechar a garrafa com esta carta dentro e atirá-la ao mar no exacto momento em que pulo pelo portal....
Espera!
Ainda há Brandy...
Olho o sol alinhado com a passagem que me chama.
Sem tirar os olhos levo a garrafa à boca.
Deixa-me dar mais um golo...
Charlie
