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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Folha do Diário dum Soldado,

No momento em que escrevo estas linhas, corro o risco sério duma punição ou mesmo de ser abatido pelo inimigo. Tenho que estar atento, e escrever é uma coisa que distrai a atenção.
São quatro da manhã e há uma meia hora que entrei neste turno de sentinela.
No entanto, durante toda a noite, não consegui ainda conciliar um só momento de sono.
À minha frente apenas vejo uns olhos azuis que me perseguem por todo o lado. São iguais ao da Marlene, a minha namorada, com quem casei duas semanas antes de ser enviado para a frente e entrar em combate.

Acabei de fazer uma pequena pausa para perscrutar a escuridão que uma lua em quarto minguante por trás dum céu em farrapos de nuvens negras mal consegue iluminar. Pareceu-me ter ouvido um ruído, mas afinal, era apenas um mocho que após ter capturado a presa, passou a rasar o meu capacete rumo à mata na colina à nossa retaguarda.

Esta manhã recebemos ordens para avançar em direcção às trincheiras que agora ocupamos. Durante o avanço tínhamos que tomar um ninho de metralhadoras que estava instalada no topo duma pequena elevação do terreno a partir de onde dominava todo o vale. Uma cobertura de fogo de morteiro abriria o passo ao nosso avanço.
Felizmente conseguimos a nova posição com poucas baixas.
Após a relativamente rápida tomada do ponto, a fustigação das trincheiras adversárias fizeram os restantes bater em retirada, o que facilitou o assalto final às suas posições.
O meu pelotão ficou encarregue de fazer a limpeza do terreno, capturando armamento, neutralizando elementos inimigos, detendo-os com ordens de serem abatidos em caso de resistência.
No ninho, constituído por uma pequena escavação a meia altura, rodeado de sacos de areia e pedras, apenas havia umas caixas de munição espalhadas, duas peças pesadas caídas assim como algumas ligeiras. Num dos lados, estava um corpo despedaçado; um dos morteiros tinha atingido quase em cheio o seu alvo e os sacos estavam parcialmente deslocados e rebentados com o conteúdo espalhado em seu redor.
Reparei contudo como no chão, mole devido à chuva miudinha que caíra na noite anterior, umas pegadas de botas levavam a direcção do bosque na encosta que agora fica por trás das nossas linhas. Segui as marcas no solo e, ainda antes de entrar no arvoredo, umas manchas de sangue num arbusto certificaram-me de que estava ferido. Talvez devido a estilhaços aquando da queda do morteiro que atingira o seu camarada. Ou talvez ainda antes, atingido por um projéctil e na iminência da sorte do combate lhe ser desfavorável, tivessem feito com que ele se retirasse na esperança de atingir um local onde se sentisse em segurança.
Avancei com cautelas, a adrenalina a ferver nas veias, abrigando-me em cada lance.
Foi quando inesperadamente o vi. Quase de caras.
Senti o sangue gelar.
Imóvel e encostado a um tronco, debilitado, estava como que esperando por mim. Nem dera quase por ele, poderia perfeitamente ter-me abatido, mas não...
Por detrás duma expressão assustada, de olhos azuis e cabelo louro com laivos negros tal como os de Marlene, estava o que era ainda um rapazinho. - Certamente um voluntário. - pensei. Apresentava um ar de cansaço e segurava a arma apontada na minha direcção com as duas mãos junto à cintura e a coronha apoiada na árvore onde se encostara. Ordenou-me para largar a minha. Respondi-lhe que estava detido, que as nossas forças tinham tomado as suas posições e que agora era meu prisioneiro.
Umas lágrimas espreitaram-lhe aos olhos, ao mesmo tempo que denunciava na inspiração o tremor que lhe tomava o corpo. Por um momento senti um alívio da pressão quando ele abaixou a metralhadora e o olhar num gesto que me pareceu de rendição.
Avancei e foi então quando se deu o desenlace. Dando-se conta de que me aproximava, levantou novamente a cabeça e voltou a apontar a arma, abrindo muito os olhos enquanto subia os braços para uma posição de ponto de mira e de dedo no gatilho. A boca a abrir-se como ao ponto de gritar algo.


Há ocasiões, como esta que sinto agora, em que tudo faríamos para alterar os rumos dos acontecimentos, invertendo-os até muitas vezes, mas naquele instante de tensão em que um momento tem o tamanho do infinito, mas é em simultâneo o infinitésimo que nos separa a vida da morte, venceu a besta. Toda a subtileza dum pensamento, toda a beleza dum poema, apenas o são se perpetuados no conhecimento contínuo, no estado de consciência, na memória de tudo e de nós mesmos, acrescentados em todos os instantes de estar vivo; sobreviver...


Premi instintivamente o indicador. O estampido soado a um menos dum metro de mim atingiu-o em cheio no peito, fazendo-o encostar-se à árvore pela qual escorregou caindo depois para um dos lados. Corri para ele, confesso que desorientado, surpreendido comigo próprio.
Apoiei lhe a cabeça contra mim enquanto, sem saber porquê, lhe dei um pouco da água do meu cantil que apenas molharam os lábios
Já tinha abatido inimigos, já tinha visto morrer camaradas mesmo ao meu lado, eu próprio apresentava umas cicatrizes de estilhaços, curadas mal e porcamente nas trincheiras à base de penicilina, mas nunca tinha passado um episódio que tivesse mexido tanto comigo.
Vi como ele chorava e chorei também. Numa voz quase sussurrada disse:
- Só não queria ser capturado....Para a semana....Para a semana...vou de licença...Há tanto tempo que não vejo os meus pais,....a minha namorada.....- Falava lentamente com pausas para tentar respirar, o que fazia com pequenos movimentos entrecortados em que apenas um dos lados do corpo se movia.
Calou-se. No seu peito, uma mancha negra e quente alastrava e arrefecia lentamente empapando-lhe o corpo. Senti como a vida lhe escapava a cada instante.
Olhou para mim, os seus olhos azuis cinza iguais aos de Marlene, a quem não vejo há meses, o seu cabelo louro e negro como o dela.
Quase num murmúrio deixou escapar um pedido que apenas entendi pelo gesto de tirar a custo um envelope de dentro do blusão e que me entregou. Morreu em seguida.
Retirei do envelope uma carta dirigida aos pais e à namorada.


....................................- Queridos pais- começava a carta,
- Espero que esteja tudo bem e que esta carta os vá encontrar de boa saúde.
Estou contentíssimo.
Foi antecipado a agenda no nosso batalhão e para a semana vou gozar a licença de quinze dias por que anseio há tanto.
As coisas tem estado difíceis, mas estamos aguentando e em breve iremos receber reforços.
O nosso comandante falou ontem às tropas e disse que as nossas forças estavam a preparar o avanço final, que estávamos a progredir em todas as frentes, que a guerra estava a acabar e que com o empenho de todos, estávamos a sair vitoriosos.

Já lhes disse na carta anterior que o posto onde estou agora é relativamente sossegado e seguro, por isso nada de preocupações.
Eu estou bem graças a Deus, embora cheio de saudades de todos.

Digam à Marlene que não fique em cuidados por não lhe escrever esta semana , pois daqui a dias estaremos juntos se Deus quiser.
Digam-lhe que a amo muito e que anseio por ela
e pelo dia do nosso casamento.

Beijos a todos, e renovadas saudades.

Vosso filho que vos adora

xxxxxxxxxx


Dobrei a carta e voltei a colocá-la no envelope. Um sentimento de sacrilégio tomou-me todos os sentidos, e chorei como há muito o não fazia.
Marlene....
Também se chamava Marlene.
Cumpri as rotinas: certifiquei-me da chapa identificadora que trazia ao pescoço.
Vi-lhe os bolsos de onde retirei uma fotografia da sua Marlene: cabelos e olhos escuros como os meus. Senti o coração parar com o sentimento de miséria que me tomou.
Mas foi ao fazer a operação de segurança da arma que fiquei no estado de destroçado, desgraçado até, em que me encontro agora; o carregador não tinha já munições, a câmara vazia.
A arma...
Estava descarregada...






Charlie




terça-feira, 23 de setembro de 2008

Carta de intenções.

Faz já um bocado que lá fora, após a passagem duns vultos brancos, as luzes se apagaram e é à luz de um coto de vela que secretamente escrevo estas linhas.
Levantei-me esta manhã com a certeza de ter nas mãos
o passo seguinte, o mais importante talvez, da Humanidade.
Durante anos li, estudei, comparei as evoluções das Sociedades e as suas degenerações.
Interiorizei como tantas vidas, em vez de cumprirem o destino elevado da sua condição humana, se perderam inutilmente em miséria e sofrimento.
Em vez de amor, poesia e uma existência dirigida ao crescimento interior, apenas o seu contrário: a perpetuação da escravidão, corrupção e prepotência, ódios e guerras derivadas dos interesses quase sempre de minorias de que resultou o Homem espartilhado, limitado, prisioneiro entre fronteiras.
As fronteiras... Essas fontes desnecessárias de permanente tensão, quando afinal somos todos homens e mulheres do Mundo que apenas desejam ser felizes e cuja única fronteira natural é o limite da vida em felicidade sempre pronta a ser expandida mais além.
Por isso, relectindo esta ânsia da Humanidade que tem sido mantida quase subliminar, e bem ponderadas as acções a empreender, tomei a firme decisão de dar este passo.
Sei que durante os primeiros tempos terei de usar a força para impôr tão elevados princípios, e quiçá fazer uso disto que mais detesto: a Guerra! Mas não vejo outro meio de, no espaço curto de uma vida, produzir um resultado tão importante e pelo qual toda a Humanidade aspira desde os seus primórdios.
O fim justifica amplamente os meios!
Arrancarei ainda este ano com as minhas Forças, destruindo fronteiras, derrotando exércitos, e num arraso desta podre Ordem antes instituída, levarei por todo o lado os grandes e generosos ideais que farão o Homem finalmente cumprir o seu destino.
Quando todo o Mundo estiver conquistado, por cima dos maiores monumentos olharei o Sol de frente e sob a minha coroa de Imperador abrirei as mãos num gesto generoso de abnegação do poder e em completa dádiva. Finalmente um coro de milhões de seres, numa fraternidade humana ciente da sua igualdade, elevar-se-á aos céus em hino de alegria e liberdade.
A Humanidade entrará numa nova etapa, as artes florescerão, os amantes serão os novos Senhores da Terra e o sorriso será o rosto de cada ser humano. Finalmente começará a ser escrita a nova e eterna página gloriosa da sua História colectiva.
É esta a minha missão. A missão da minha vida.
Agora vou pousar a caneta, apagar a vela e as sombras dançantes que projecta no corredor e deitar-me, pois amanhã cedo encetarei todo o processo que levará a Felicidade à conquista do Mundo.
Esperem por mim, pois em breve estarei ao vosso lado.
Ah...quase que me esquecia de apresentar-me.
Vosso servidor, sou
de meu nome abaixo assinado:

Napoleão Bonaparte, o Corso...

Charlie

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Carta de um ex-deus

clique sobre as fotos para saber a proveniência

Agora que o passar dos séculos perdeu tudo o que dava à sua passagem sentido, deixo que estas linhas se escrevam lentamente nos bocados de pó e folhas com que o vento me tem vindo a cobrir por entre as mortalhas sucessivas de esquecimentos e ervas.

Sou dos Deuses do meu Tempo o que há mais tempo se encontra nesta posição; deitado de lado, derrubado pelas hordas de invasores que desconheciam o infinito dos nossos poderes.
Derrubaram-nos, aos Deuses menores, a golpes de espada e lança por entre os gritos e horror dos vencidos. Atirados ao chão, espumas carmim salpicadas de vermelho sobre o negro dum mar de sangue.
A outros dos mais poderosos, postos em altos pedestais disto que foi um templo, grandes e imponentes no seu brilho de mármore e granito, foi-lhes dado a desonra do degredo e cativeiro.
Derrubados com cautelas e levados a toque de chicotes e gritos por escravos miseráveis e desgraçados.
Expostos depois de longa viagem para a sua suprema humilhação e para gáudio do olhar pagão e vago de esposas e concubinas nos jardins e palácios dos generais vencedores.
Outros menos afortunados ainda jazem, no entanto, aqui espalhados pelo solo; quase enterrados por entre os destroços que os milénios arrancaram das paredes e tectos .
A eles foram-lhes cortadas as cabeças para servirem de troféus nas casas da soldadesca e serem mais tarde postos ao desprezo num canto qualquer ou vendidos a algum obscuro comerciante.
Os corpos desmembrados vivem desde então no chão, nesse inferno da escuridão e silêncio e eu miro-os neste olhar que se cega tanto com o sol nascente como com os rebentos de vegetação da Primavera que me cobre todo o campo de visão até que braseiro do Estio os transforme novamente em pó e nada...


Agora vou interromper por momentos esta escrita.
Está a chegar a hora pela qual espero todos os dias.
Dentro de poucos minutos um reflexo fará incidir sobre o meu olhar uma luz intensa e dourada, tão forte e luminosa, que durante um momento toda a terra se renderá ao meu poder ancestral.
Aos meus pés pedindo protecção, aquele abraço de amantes que de anéis nos dedos protegeu o meu corpo caído enquanto o seu era trespassado pela impiedade das espadas.
Renovarão nessa altura em raios de sol, a jura de eterna pertença: A mim, o Deus do Amor...


Charlie