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domingo, 24 de março de 2024

A BRUXA.

Um conto, a propósito da celebração da Primavera.
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A BRUXA.
Poisou uma vez mais a escova na minúscula mesa que fazia as vezes de toucador e que um velho espelho encimava.
Naquele pequeno quarto, tudo era como o resto da casa onde quase mais nada havia excepto frascos.
Frascos e mais frascos com as mais variadas ervas enchiam prateleiras toscas de madeira, algumas ameaçando estar prestes a sucumbir.
Molhos de ervas ocupavam também partes apreciáveis da superfície da única mesa no compartimento ao lado e que fazia de cozinha. Era também na cozinha que estava a única porta daquele casebre
Algumas misturas estavam no chão, em potes de barro, guardadas em preparados
Lentamente afastou as abas da peça de roupa que lhe cobria o peito e mirou-se.
Há quanto tempo …
Desde que o seu homem morrera.
De acidente disseram, - soou na aldeia-, logo ali a pouco mais de cem metros que agora o Inverno tornavam mais difíceis de passar.
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Despertou dos seus pensamentos com umas pancadas na porta.
Ajeitou depressa a roupa, e levantou-se um pouco irritada.
Raio dos miúdos, outra vez.
Mesmo agora no Inverno em que as veredas estão enlameadas não desistem.
Não tarda, começam a gritar como fazem sempre antes de fugir e atirar umas pedras.
-Bruxa! Bruxa..
Fogem a toda a brida quando abro a porta e vão gritando:
-Fujam que vem aí a bruxa…
.
As pancadas na porta repetiram-se
Mas não parecia ser mais do que uma pessoa.
Talvez alguém a querer encomendar algum remédio para os achaques, pensou.
Abriu a porta e olhou para baixo.
Uma criança olhava-a com os seus olhos de menina, muito grandes, directamente ao fundo da alma daquela mulher solitária e magoada.
Olharam-se em silêncio.
Depois, a mulher mudou a figuração do rosto, abaixou-se e num sorriso doce perguntou-
- O que precisas, menina.
Foi quando a criança irrompeu num pranto.
- A minha mãe…O senhor padre já lhe deu a extrema unção..
- Mas o que é que ela tem?
A criança lá explicou e com mais umas perguntas a mulher retirou-se voltando passados alguns minutos com um pequeno volume e um frasco.
- Toma atenção: isto é muito forte: dá já uma colher de sopa deste frasco e obriga-a a beber do chá que fizerem com esta mistura de ervas. Pode até não conseguir beber por estar muito fraca, mas com uma colher dêem-lhe a pouco e pouco até perfazer o volume de uma caneca.
De hora a hora tem de tomar uma caneca deste chá, e de duas em duas horas no primeiro dia uma colher do remédio do frasco.
Depois, se ela melhorar, vão dando três colheres por dia até acabar o frasco.
Depois, traz o frasco de volta por favor.
-
Mais de uma semana tinha já passado e seria já perto da meia noite quando acordou com fortes ruídos no exterior.
Vozes de homem, uma ou outra de mulher.
Vestiu-se à pressa e abrindo o postigo da porta olhou meio ensonada, enfrentando o que era já uma gritaria.
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À frente de uma pequena multidão, o padre vociferava:
- É esta a filha do Demo! A que se atreve a interferir na obra de Deus.
- Mas o que é que fiz? Atreveu-se a mulher?
- Ainda perguntas, infame herege? Tiraste uma alma ao Senhor, fazendo-a perder-se para sempre nas fogueiras do Inferno!
Aquela alma que os braços do Senhor já acolhiam no seu seio foi arrancada pela força de uma poção do Demo!
E dizendo isto mostrou o frasco vazio que a criança tinha levado uma semana antes.
-Bruxa! Bruxa! Bruxa! Gritava agora a multidão.
- Queimem a bruxa. Disse o padre enquanto abria o missal que depois segurou com uma só mão enquanto com a outra fazia o sinal da cruz, proferindo umas palavras que ninguém já ouvia.
- Queimemos a bruxa! Queimemos a bruxa!
E dizendo isto começaram a atirar os archotes para cima da coberta da casa.
Outros aproximaram-se do casebre despejando líquidos para cima dos troncos de madeira que faziam de parede exterior.
À pressa a mulher fechou o postigo, cerrou as trancas da porta e retirou-se para o quarto.
Descobriu a cabeça e mirou-se ao espelho ajeitando os longos cabelos.
Calmamente retirou um pequeno frasco que guardava numa gaveta da mesa e engoliu o conteúdo de uma só vez.
Afastou as abas da vestimenta, deixou cair toda a roupa e mirou o seu corpo desnudo enquanto as chamas já irrompiam pelas tábuas do quarto.
Fechou os olhos e sorriu sentindo todo o seu corpo sucumbir.
Estava feliz, num doce crescendo de flutuação etérea.
Finalmente iria ter com o seu amado...

Charlie
(Carlos Luanda)


sábado, 7 de janeiro de 2012

O Julgamento




Com um finar de martelo culminou a sentença que em voz monocórdica e olhando para ele como se fosse transparente, ditara. As últimas frases, mais: os últimos parágrafos, haviam-lhe soado em surdina, de tal forma o desfecho previsível e desfavorável se ia compondo como resultado do julgamento onde todas as testemunhas, uma após outra, tinham colaborado para o desmontar do seu argumento de defesa. Um leve burburinho elevou-se discretamente na sala enquanto os papeis se guardavam nas pastas e vozes imperceptíveis se trocavam entre os agentes de justiça.
Rodando o corpo para trás, de forma a ficar bem de frente para cada uma delas, fitou as testemunhas, uma após outra. Em vão procurou os seus olhares que preventivamente se distraiam pela sala, chão, tecto, adereços e outros olhares, evitando de forma ostensiva o seu.
Agora que o momento passara, distendendo a tensão com alívio para uns, mas com a morte na alma para ele, via nitidamente em cada um dos rostos a personificação dos sete pecados capitais.
A gula pensou ele, ao olhar para um dos que sabendo a verdade, tinham alterado os factos de forma a comprometê-lo. Fácil de comprar, pensou: bastaria uma boa jantarada ou duas ou uma saída à noite. Depois olhou para o outro, por sinal ainda aparentado. Magro, de óculos finos e fato austero era a imagem da avareza. Este teria sido quiçá o mais fácil de comprar. Uma leve sugestão de despesa extra se o caso tivesse tido um desfecho a seu favor, acrescentado talvez de alguma vantagem se fosse condenado.
Depois olhou para ela, a invejosa. Desde criança que fora assim. Essa também não seria difícil de convencer, estava convencida à partida. Desde eu ficasse mal, mesmo que ela não beneficiasse coisa alguma.
Passou depois o olhar para outra. A ira: uma pessoa má. Não tinha amigos, de tal forma era rancoroso, incapaz de perdoar a mínima falha alheia. Sempre disposto a desenterrar antigos diferendos, mesmo que estes não tivessem qualquer importância ou que esta se tivesse esgotado pelo passar do tempo. Sim! Com este teria sido também muito fácil pois nos encontros e rodas de amigos há já muito acontecidos, ele levara-o a melhor nos argumentos, coisa que o aborrecera profundamente e tinha levado a afastar-se.
A seguinte era a soberba em pessoa. Pensou um pouco mais demorado como teria sido possível comprar aquela testemunha, convence-la a dizer algo que sabia não ter acontecido, mas depois fez-se lhe luz. Também aqui a palavra aplicada no registo certo teria espoletado a característica-chave da sua personalidade. Algo do tipo: - ele anda a denegrir o teu trabalho, diz isto ou aquilo-... Sendo artista e extrovertido e não cabendo em si pela falta de humildade, uma frase teria bastado, o resto seria questão de cozinhado.
De propósito saltou o sexto pecado, guardando-o para o fim, enquanto se deteve no elemento que personificava a preguiça. Detestava-o e dissera-lhe isso mesmo por mais de uma vez. Incapaz de dar uma ajuda a alguém, ficava a olhar, aparentemente alheio, sempre que alguma colaboração lhe era pedida. Mesmo se alguém estivesse aflito a precisar de uma mão, jamais se disponibilizara a dar uma ajuda. Ele sabia que  nunca poderia ter estado naquele sítio, pois vira-o entrar para casa dela, cruzara-se com todos eles, os anteriores, quando tinha ido ter com ela, essa que de propósito guardara para o fim: a luxúria. Meu Deus! Como ela era fogo na cama. De todas as vezes que subira aquelas escadas, ele, agora condenado,cumprimentara-o, ao preguiçoso, com uma tirada jocosa, ao que ele ruminara algo vago do tipo:-vai-te lixar….-, mas ela…ela. Meu Deus! repetiu de novo dizendo-o inconscientemente em voz alta. Veio-lhe à memória como se fosse um só momento, todos os instantes, desde o abrir da porta, dos lábios sôfregos e mãos infinitas e dos seus corpos a explodir e morrer um no outro, e ainda, a efervescente forma de como se tinham conhecido…mas agora...?
Condenado a vinte e cinco anos, a indemnizar com a incontornável perda de bens por falta de recursos suficientes, ia perder, além de todos os meios de fortuna, toda a vida social e profissional. Os amigos, até mesmo os mais verdadeiros, iriam um após outro rareando as visitas até ficar completamente entregue a si mesmo, à sua revolta e solidão. A família, pouca e distante fora a primeira a afastar-se.
Mas porquê?, interrogava-se uma e outra vez…
Um coração acelerado e alimentado pela angústia e revolta surda não lhe davam outra resposta que não as gotas de suor frio que lhe humedeciam a testa.
Naquele momento, em que todo o céu desabara sobre si, confuso e demasiado próximo dos acontecimentos, não conseguia descortinar uma razão válida ou um motivo por mais leve que fosse para que tivesse sido condenado por um crime que não cometera. Sem dúvida que algumas implicações circunstanciais o poderiam ter indiciado, mas bastaria a palavra honesta das testemunhas para que ficasse de forma cabal inocentado. No entanto…
Fechou os olhos, e por uns momentos reviveu o fogo da paixão dessa cujo testemunho fora determinante para a sua condenação. Luxúria, luxúria!!! Paixão... e depois... Deu-se conta como passava da sensação de agrado para a desolação e a raiva impotente e como o suor lhe empapava desconfortavelmente as axilas e lhe escorria pelo couro cabeludo até ao colarinho, e como mais abaixo uma impressão de molhado denunciava as virilhas invadindo igualmente as roupas íntimas pelo fluido orgânico.
Um abanar do corpo fe-lo querer abrir os olhos, em natural reacção, mas surpreendentemente reparou como não conseguia. Seriam os funcionários da presidiária talvez, diligentes em dar corpo à decisão judicial, mas a luz apagara-se, sentia-se ainda mais confuso e debalde tentara dizer uma simples palavra.
-Acorde! Ouviu ele distante enquanto esperava que os guardas o levassem para o cumprimento da pena. Apenas um -“Ãah? “- atordoado saiu-lhe como vaga resposta.
-Acorde, está na hora de tomar os medicamentos. Esteve toda a noite com febre alta e pesadelos. …..- ouviu ele agora já de olhos abertos para aquela voz feminina, que momentos antes estivera sem a farda de enfermeira a incendiar-lhe os sonhos....
- Fartou-se de falar, senhor dr Juiz....

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Teria escrito uma carta.

Teria escrito uma carta se tivesse sabido de que maneira

o poderia ter feito.

Não sabia ao certo como tinha ido parar ali. Não me lembrava de ter memórias antigas e sem saber porquê, todo o conhecimento de mim próprio cabia em poucas horas. Muito vagamente umas leves impressões de como olhara para o Sol a pôr-se antes do anoitecer que agora terminava. Umas deambulações por aqui e por ali meio perdido, e depois, sem ter noção precisa, o aparecimento naquele espaço onde agora me encontrava, e onde descansara sem saber em que sítio exacto, deixando-me envolver pelo manto suave do cansaço após ter fixado o meu olhar na beleza daquele ser que estava ali. Deitada à minha frente...

Os primeiros raios a ameaçar rebentar o horizonte, ao entrar pelos rasgos da persiana, fizeram-me despertar e inspirar fundo o puro gozo de existir.
Estava dono duma leveza inebriante, ultrapassando os limites dum corpo que nem sentia, e todo o espaço me cabia num gesto.

Olhei para um lado e para outro, mudei de posição sempre com ela na mira. Era linda, toda suavidade e maciez, um hino à feminilidade despertando todos os quereres. Atrevi a aproximar-me levemente do seu ombro, tocá-lo e saborear o suave aroma que a sua pele exalava, mas hesitei no último instante. Não sabia como ela iria reagir ao meu afago, ao meu toque, e agora que estava tão próximo dela, todo o desejo avivava, fazendo crescer a agua na boca, mas no último instante resolvi adiar por momentos o encontro com o meu desejo. Senti o calor do seu corpo e de como ela nesse mesmo momento, ao mover-se na cama, despertara do seu sono.
Afastei-me devagar de forma discreta sem que tivesse dado pela minha presença. Ali para o fundo do quarto onde fiquei olhando para ela que entretanto se levantara.
Mesmo sentindo que não tinha corpo escondi-me atrás das franjas do cortinado que estava aberto, expondo as nesgas da persiana por onde o ar fresco entrava, enquanto seguia como ela deambulava pelo quarto e expunha toda a sua nudez apetitosa aos meus instintos e apetites. As curvas do corpo, o brilhar dos olhos, o convite dos lábios húmidos, o mundo dos aromas que me chegavam aos sentidos.

Saiu e voltou depois duns minutos exalando vapores e aromas novos, adocicados. O cabelo molhado que ela massajou com uma toalha e que sujeitou depois à disciplina dum pente. Vestiu um roupão e foi para outro compartimento.
Resolvi segui-la. Agora era uma cozinha. Cheiros muito diversos enchiam-na por completo e olhando melhor para ela via agora como expunha uma orelha por entre a suave nuvem de cheiros que saíam do seu cabelo ainda húmido. Abriu uma porta e tirou um recipiente. Encostou-o à boca e de olhos fechados deleitou-se lenta e gostosamente. Foi então que me aproximei do ouvido exposto por entre a sinfonia de tons reflectidos vagamente pelo sol a nascer e que através da janela incendiavam o cabelo em doces chamas e nuanças. Cheguei-me lentamente a ela, cada vez mais próximo, até ficar a um mero nada de dar-lhe um beijo, de passear-me por ela e saborear a beleza do seu corpo....

Assustei-me pois repentinamente ela pareceu ter dado pela minha presença, rodando a cabeça com os olhos a seguir vagamente onde eu poderia estar. Não sei como ela deu por mim, pois nem eu próprio tenho noção de ocupar espaço algum.
Escondido por trás dum armário vi como ela mexeu num botão na parede.
Um milagre tomou repentinamente forma. Toda uma alegria se instalou de forma inesperada naquele recinto. Tudo ficou inundado duma luz intensa e bela. Uma verdadeira maravilha, um paraíso para os sentidos sob aquele apelo irrecusável de beleza e excelência. Todo o espaço ficou recheado dum jogo extraordinário de efeitos de cor e brilhos irreais, verdadeiros prodígios para o sentido da visão.
- Que maravilha! -pensei. Por um instante esqueci-me dela e com toda a luz no olhar desloquei-me atraído pela dança que se espalhava pelo recinto da cozinha. Por todo o lado a luz me inebriava e atraia, mas ali, num ponto que de repente descobrira, tudo era mais belo e apelativo, toda uma grandiosa sinfonia de luz a correr em nascente me chamava e dava-me corpo.
Quase que me tinha esquecido da mulher que agora parecia estar a ver-me. Levado pela minha alegria passei novamente junto a ela, e enquanto me deslocava na direcção da fonte em cascata de todo aquele fantástico apelo, olhei-a maravilhado nos olhos. Sorria-me e eu sorri para ela um mero instante antes de sentir todo o meu ser atravessado por uma forte vibração ao mesmo tempo que toda a luz se incendiava para me deixar depois mergulhado na completa escuridão sem que tivesse mais noção do meu existir...

Cá em baixo, com o pacote de leite encostado aos lábios, ela bebia a satisfação da vitória rápida sobre a incómoda mosca que desde a manhã a perseguira...