sexta-feira, 8 de junho de 2007

Carta dum moribundo…

Carta deixada aqui por Charlie


Escrevo estas linhas com a absoluta sensação de estar a viver os últimos instantes do sopro vital que o Criador insuflou nestes restos eternos que a Mãe Terra há-de absorver e transformar em outras formas de vida no seio do seu generoso e quente ventre materno.
Ah, como me dói todo o corpo!
Não é uma dor localizada em lado algum; é antes o esvair lento do meu interior a espalhar-se pelo espaço, ferindo todos os poros à medida que vai rompendo a fina barreira de mim mesmo e diluindo-se em nada, nos nadas de que são feitos os indefinidos e infinitos mundos etéreos dos espíritos.

Está cá um destes frios!...
Sinto os arrepios a vir dentro de mim, do interior mais profundo e insondável desde onde a alma alimenta a seiva dos ossos…
Ai se soubessem como me custa a respirar…….
Mas vou devagar. Ainda tenho que acabar estas linhas e sinto-me fraco.
Lembro-me como já passei por situações semelhantes, em que todo o meu corpo se ria da torpeza da senhora da foice vestida de negro. Ri-me quando me levaram para o Hospital, a esvair-me em sangue depois de ter sido atingido por uma bala quase à queima-roupa. Mas todo o meu corpo oferecia vida e sangue! E ri-me da ferida grave com a mesma leveza com que mergulhava nos corpos das putas uma e outra vez sem vacilar, em orgias desregradas, sem que alguma vez o meu corpo se sentisse e me traísse dos exageros. Agora é diferente, mas nessa altura?!... Todo eu era tesão à flor da pele e fontanário de vida e sangue inesgotáveis.
Voltou a acontecer mais tarde, voltei a ver a senhora da foice noutras rixas e acidentes, e o escarnecer típico e arrogante da imortalidade juvenil sobrepôs-se sempre ao tétrico da sua presença.

Depois conheci-te. Sem esperar, numa altura em que eu, sentado debaixo da macieira, observando o sol em declínio a preparar o poiso no horizonte, descansava o corpo de guerreiro e a guerra se passava em mim na queda contínua das cascatas de ideias.
Lembro-me das flores que te ofereci…
- Um dia ofereces-me flores? – Perguntastes-me uma vez em tom de desejo, e eu
respondi-te com o brilho do fogo na alma, que te daria um jardim.
Enchi-te o gabinete de flores. Lembras-te? Eram às dezenas e dezenas de ramos e arranjos de todas as espécies. De tal forma exagerada que deixou de haver lugar para mais nada. Eu fui sempre assim. Enchi-te a vida de tal maneira, que ficaste sem espaço para ti mesma. Telefonaste-me num rir nervoso, um misto de ternura e desconforto:
- Não existes! - Disseras. Hehehe....

Rio-me e tusso num esgar. Sinto-me a acabar, ai....
A seguir, morreste. Assim de repente. Num piscar de olhos quando me deixei afrouxar num momento fugaz do meu cansaço. Depois da praia nos ter servido de toalha onde comíamos o mar em garfadas de sol e saliva. Depois das horas passados juntos nos terem sabido apenas a minutos. Do último beijo do - Até já, - ter o sabor intenso ao sal da Saudade de séculos. Morreste sem que nunca mais te tivesse visto. A morte dói mais quando nos brinda com a ausência dum corpo a quem possamos abraçar na despedida.
Ainda te procurei meses a fio, esquecendo que eras apenas um fantasma, o lado de lá dum céu sem luar. Um mero rasgão de dor que fica quando nos roubam uma jóia e no seu lugar fica um buraco no peito.
Agora que me sinto finar, nem me dói mais a perda. Sei que para onde vou, não existem memórias e que renascerei livre de mim e do peso que arrasto.

Toc-toc-toc....
Batem à porta. Nem preciso de perguntar quem aí vem. Sei que é ela, a senhora da foice, de negro vestida. A porta range ao de leve e uma estranha luz invade muito docemente o meu quarto de homem só. O vulto de quem escarneci tanta vez pára junto aos pés da cama. Estou calmo, muito calmo e miro-a com a visão turva e semicerrada duma grande sensação de paz.
Lentamente afasta o capuz que lhe esconde o rosto e a pouco e pouco um tremor intenso toma-me o corpo à medida que se vai descobrindo. Depois, com os olhos tomados de espanto olho e volto a olhar para querer acreditar no que não quero crer. Docemente a mão estica-se na minha direcção e caio na verdade quando a voz que diz: - Vem - é a mesma que em tempos me dissera a rir que eu não existia quando lhe enchera a vida de flores...

19 comentários:

fairybondage disse...

Está espectacular!!! foi a frase que me saltou da boca quando acabei de ler o teu texto!!! Tive que a escrever, para que a possas ouvir do outro lado desta blogsfera que de alguma forma nos liga, por cabos e sensações...

Adorei!!!
Mil beijinhos

Ana disse...

A morte seria doce se fosse esse alguém a vir-nos buscar.
Enches este espaço de flores.
Um beijo, Charlie.

gasolina disse...

Olá Charlie,

Descobri-te noutro blog e o comentário que lá deixaste impressionou-me, pelo que resolvi aparecer.
O teu sitio é um encanto, as tuas palavras fortes e cruas.
Vou voltar. A menos que não mo permitas, claro!

Um abraço, fica bem

Um Momento... disse...

Arrepiada!!!
Senti o sangue a percorrer-me as veias
A ãnsia de devorar tais palavras
A sofreguidão de ler uma a uma
Soberbo !!!
Agradecida pela visita , e em bom momento te visitei
Parabéns !
Com toda a certeza ... voltarei :)))
Até já :)

Som Do Silêncio disse...

Charlie...
As tuas palavras deixaram-me simplesmente maravilhada tal a força com que me atingiram.
Tens um cantinho muito belo.
Voltarei para te lêr com mais tempo.

Um Beijo em Silêncio

gasolina disse...

Charlie,

Obrigado pela tua visita.
Uma vez que nada disseste, vou passar a ser assidua nestas "Cartas".

Beijo, fica bem

Dalila disse...

que medo... não quero morrer =/

Um Momento... disse...

Sorrindo , passando para desejar um bom fim de semana cheio de Bons Momentos :))
Um Beijo (*)

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

Já tinha lido este teu texto e mantenho a mesma opinião.
Sabes qual é...
beijos

charlie disse...

Olá, Fairybondage, Ana, Gasolina (não lhe cheguem um fósforo :D )Esse grande Momento, O doce Som do Silêncio, Dalila e Nadir-poema. Obrigado pelas visitas e comentários.
Este texto tem a ver com algo que a todos diz respeito. Incontornável e dramático.
Temos todos a ilusão breve da imortalidade durante a juventude,e prolongamos a vida para além da nossa existência física. Iludimo-nos com construções interiores que nos confortam. Torneamos o terror, o vazio da morte, afastando a ideia de que o nosso estado de consciência de meia dúzia de dezenas de anos é apenas esse momento irrepetível que somos nós e que depois de nós, para o nosso estado de consciência, não existe mais nada: o "nao ser".
Mas somos ainda, e apesar de tudo, de certa forma mais que esse período de tempo em que a matéria de que somos feitos tem consciência de si mesma. Somos a nossa obra, os nossos afectos, onde perduramos nas memórias, e os nossos filhos que nos imortalizam nos genes que carregam. E somos a capacidade de sonhar para além da nossa existência, dos limites do nosso corpo e dos nossos sentidos. Eu, posso sentir-me vocês através do que me dizem e escrevem. Podemos saltar para o futuro, passado, universos e utopias. Somos aí certamente infinitos e intemporais, numa palavra imortais, renascendo uns nos outros eternamente.

gasolina disse...

Charlie,

Fico à espera de mais.

Um abraço

Um Momento... disse...

(",)
Passei para te pedir para passares na minha "casinha"
Tenho um Miminho para ti
Até já
(*)

charlie disse...

Olá Momento único.
Visitei a tua casinha e é um espaço lindíssimo.
Obrigado por teres incluido as Cartas sem valor num espaço tão rico e valioso.

Rafaela disse...

Olá, vim retribuir a sua vista e te agradecer por tão gentis palavras volta quando quizeres serás sempre bem vindo ao meu Canto de Amor. Bjokasss!!

Menina do Rio disse...

E o que é a MORTE senão diluir-se até integrar-se novamente à TERRA de onde brotamos. Talvez a dor seja tão igual a que sentimos quando rompemos as entranhas do últero em nossa chegada...

beijos

Um Momento... disse...

Charlie..
Só agora vi que estava "linkada " a ti
Grata, pois era para to pedir.. e não o fiz... nem sei pq...
Já sabes o que vou fazer não já ?(",)
Um beijo bem aí(*)

Menina do Rio disse...

E eu ainda procuro...

beijos

Trequita disse...

uma flor para ti!
bjokitas

Jasmim disse...

Muito bonito o teu texto.
Bonito e triste.
Um bom domingo
Jasmimdomeuquintal.blogspot.com