sábado, 19 de maio de 2007

Carta dum canalha

Domingo, Julho 16, 2006

carta aqui deixada por charlie

Sou um canalha.Sim!
Na verdadeira acepção da palavra.
Um homem sem escrúpulos.
Uso o mesmo sorriso para pagar um café ou para vigarizar um tanso qualquer.
Na verdade, toda a minha vida foi passada a endrominar meio mundo.
Podem perguntar se sou rico.
Não me considero rico, isto é; neste mundo há homens muito mais ricos que eu.
Para dizer tudo como realmente é, e como sinto, precisava mesmo de dar um tremendo golpe para me sentir exultante e realizado.
Não me dá já qualquer satisfação seduzir e fazer com que uma mulher se me entregue.
Que me dê de mão beijada o seu coração, o seu corpo os seus pertences e a sua alma.
Deixo-a no acto continuo e isso não me pesa nem um grama na minha consciência. Depois de ter o que pretendo só posso seguir em frente, senhor dos meus intentos, rumo ao infinito da satisfação seguinte.
Casos houve em que nem para a cama fui, desaparecendo sem deixar rasto após ter o que queria. Na verdade, só o pensar nas suas lágrimas me dava uma sensação próxima do orgasmo. O saber-lhes em angústia esperando por mim, presas entre a dúvida e a sensação de terem sido enganadas, dava-me um gozo tremendo.
Sou assim, mas sou mais:Sei muito bem o que é falsificar assinaturas, alterar as quantias nos cheques e vender por bom preço acções sem valor. Já vendi propriedades que não me pertenciam e também vendi o mesmo lote de terreno a uma dúzia de pessoas.
Sei o que é conseguir apropriar-se dum Banco sem ter dinheiro. Sei o que é levar à ruína inúmeros accionistas e empresários que confiaram em mim. Mordo os lábios de satisfação e gozo puro só imaginar-lhes as mãos a afagar a arma que depois encostam à cabeça.
Acima de tudo sei o sabor único que existe na saliva do predador que sou e que me prezo de ser: - O sabor a sangue! -
Mas tudo isso, como já disse antes, não me diz nada neste exacto momento. À custa de tanto repetir as mesmas acções, elas perderam o impacto e o frenesim com que me costumavam prender e excitar.
As mulheres há muito que deixaram de ser minhas vítimas. Não por falta de desejo, mas por serem alvos demasiadamente fáceis.
Vender terrenos e acções, enganar gerentes bancários e tudo mais... já nada disso me move. Preciso mesmo de algo intenso e que seja o corolário da minha carreira de canalha. Uma coisa em que possa empenhar todo o meu ser, aplicar o supremo dos meus expedientes, vencer as barreiras interiores e fazer com que todos se me entreguem.
Algo em que tenha à minha frente toda uma multidão crente, em êxtase total e pendurada das minhas palavras. Uma sessão única onde sinta ter todas aquelas almas presas das minhas lágrimas, escorregando deliciadas e sofridas em cada palavra chorada e levadas ao meu bel-prazer pelos meandros tortuosos da minha sedução.
Agora que vivi todos estes anos.
Que já experimentei tudo o que há para experimentar, e onde nada me resta descobrir no campo onde sou Mestre, só vejo uma saída.
Vou candidatar-me a um cargo político....
Sei que irão votar em mim...

Charlie.

5 comentários:

Anônimo disse...

O verdadeiro canalha ...retrato do mundo .
Não voto em ti enquanto politico...és demasiado franco assumindo aquilo que és . Pelo menos mais és mais honesto que os actuais politicos da nossa praça.
Solmar | Homepage | 27.04.07 - 2:30 pm | #

Gravatar PORREIRO! Nunca ninguém se assume como é! Eu voto em ti, não como político porque eu dou-me o direito de não exercer esse direito. Voto em ti para a vida!
maresia | Homepage | 13.12.06 - 4:47 pm | #

Gravatar Charlie procuro novos escritores e sem ter muito para oferecer senão o aumentar a circunferência de amigos e bons poetas e escritores que participam na minha lista "Amantesdasleituras".
caso tenha interesse ou curiosidade contacte-me s.f.f..

obrigado
ana maria costa | Homepage | 24.10.06 - 12:14 pm | #

Gravatar (Não sei porquê, mas houve um erro no comment anterior)

Amiga Raquel, já faz um tempo que não conversamos é verdade. Obrigado pelo comentário. Mas este desmontar dum canalha é uma pequena peça marcada pela leveza. Ligeira quanto baste, pois a perversidade Humana vai muito mais longe. Acredito mais na "Queda dum Anjo" que no triunfo ilusório do bem embora eu seja um seguidor nato da utopia e da felicidade no fim do arco iris.
Charlie | Homepage | 07.08.06 - 10:35 am | #

Gravatar Amiga Raquel, já faz um tempo que não conversamos é verdade. Obrigado pelo comentário. Mas este desmontar dum canalha é uma pequena peça marcada pela leveza. Ligeira quanto baste, pois a perversidade Humana vai muito mais longe. Acredito mais na "Queda dum Anjo" que ilusório eu seja um seguidor nato da utupia
Charlie | Homepage | 07.08.06 - 10:16 am | #

Gravatar Na verdade, Daniel, os verdadeiros canalhas, são assim mesmo. Convencem toda a gente com o seu brilho intenso e dão-se a conhecer fazendo crer ás vitimas que elas estão do lado dele, do vencedor. "Ao meu lado seremos donos do mundo" dizem enquanto os olhos das suas presas se vitrificam na ilusão e no encanto de se aproximar dos Deuses...
Charlie | Homepage | 07.08.06 - 10:09 am | #

Gravatar Caro charlie, não serás a reencarnação de Alves dos Reis, mas... em bom ? Quersedezere... em pior!!!
hehehehe
Podes contar com o meu voto, assimcumassim, consegues ser mais honesto que aqueles que lá estão ... assumes-te.
Afinal não és assim tão mau...
hehehehehe
diga-se de passagem, que daria muito jeito ao país ter um primeiro ministro capaz de rebentar com os bancos da UE, com os accionistas da europa, américa e arredores.
Aqui entre nós... já escolheste o staaf?
Estou disponível para teu ministro das finanças, conta comigo.
Falcão | 27.07.06 - 9:53 am | #

Gravatar Caro Charlie
Impossível votar em ti! Então és assim e não mentes?! Essa é a maior "qualidade" de um político! Já não vais lá com esta confissão
um abraço
Daniel
Daniel Aladiah | Homepage | 26.07.06 - 7:43 pm | #

Gravatar Interessante a tua forma de "desmontar o canalha", MUITO mesmo!

Quanto ao político... esse eu julgo que se engana a ele próprio... que é tudo muito lento e há um filme fantástico - City Hall (1996) http://www.imdb.com/title/tt0115907/- que mostra como até um homem bom chega "lá".

Beijos
Raquel V. | Homepage | 25.07.06 - 10:43 am | #

Gravatar Potente...tocante...e deveras interessante......fica bem...!
http://livingitinsilence.blogs | 18.07.06 - 11:49 pm | #

Gravatar E se em vez dum banco, saltar duma nuvem sem paraquedas?....
Charlie | Homepage | 18.07.06 - 5:51 pm | #

Gravatar Ahahahaha. Se assaltares um banco por mim.. talvez, mas muito talvez eu vote em ti...
LolaViola | Homepage | 18.07.06 - 12:08 pm | #

Gravatar Genial... pelo menos a escolaestá feita!
SEREU | Homepage | 17.07.06 - 12:11 am | #

redonda disse...

Eu não vou!

redonda disse...

:) Agora vou ter de "linkar-te" :) para não perder o contacto.
Gostei de como escreves e do sentido de humor :)

Anônimo disse...

É sério ? As lágrimas e o sofrimento dos outros excitam-no ?
Se eu lhe dissesse que preciso de si, muito, que a vida não faz qualquer sentido se eu não lhe toco, se não lhe beijo, se não o amo, isso excita-lo-ia ?
Então diga-me como encontrá-lo e eu prometo que lhe darei esses e melhores motivos de excitação.
Para mim está mais que eleito.
Claro que votaria em si.
Quem assume assim a sua natureza é capaz de revolucionar o mundo.
E eu sempre soube que o homem que eu viesse a amar operaria em mim uma revolução...
airam

charlie disse...

Olá anónima Airam.. ;)
São assim os canalhas perfeitos.
Encantadores e transparentes.
Dizem o que são e fazem despertar nos outros que os rodeam a sensação única de fazer parte do universo de eleitos que têem o previlégio de compartilhar o universo mais intimo desse canalha.
As canalhices deixam de o ser. Estamos juntos a quem é Deus e Deus é bom e justo, e tudo o que faz é divino.
Só quando a canalhice nos bate à porta é que acordamos da nossa anestesia.
Descansa que eu não sou esse personagem e inclusive tenho por vezes deixado de usufruir de vantagens apenas para não prejudicar outros. Mas, falando de doces canalhas, todos conhecemos pessoas assim, não é?
Doces, grandiosos e lindos...e amargos depois no travo final.

Carlos