sábado, 6 de abril de 2024

Quero-te tanto.... ao longe

 



Quero-te longe de mim,

Sabendo que me amas

Mas longe do teu amor.

Mas não tão longe

que ao longe te deixe de ver


Quero-te aqui

               só a arder no meu peito

E que o teu olhar seja a da mariposa

A voar para a luz

Sem nunca lhe chegar tão perto

Que se queime 

neste amor

Que lhe sinto,

De que preciso

Mas que não quero.


Carlos Luanda

domingo, 24 de março de 2024

A BRUXA.

Um conto, a propósito da celebração da Primavera.
.
A BRUXA.
Poisou uma vez mais a escova na minúscula mesa que fazia as vezes de toucador e que um velho espelho encimava.
Naquele pequeno quarto, tudo era como o resto da casa onde quase mais nada havia excepto frascos.
Frascos e mais frascos com as mais variadas ervas enchiam prateleiras toscas de madeira, algumas ameaçando estar prestes a sucumbir.
Molhos de ervas ocupavam também partes apreciáveis da superfície da única mesa no compartimento ao lado e que fazia de cozinha. Era também na cozinha que estava a única porta daquele casebre
Algumas misturas estavam no chão, em potes de barro, guardadas em preparados
Lentamente afastou as abas da peça de roupa que lhe cobria o peito e mirou-se.
Há quanto tempo …
Desde que o seu homem morrera.
De acidente disseram, - soou na aldeia-, logo ali a pouco mais de cem metros que agora o Inverno tornavam mais difíceis de passar.
.
Despertou dos seus pensamentos com umas pancadas na porta.
Ajeitou depressa a roupa, e levantou-se um pouco irritada.
Raio dos miúdos, outra vez.
Mesmo agora no Inverno em que as veredas estão enlameadas não desistem.
Não tarda, começam a gritar como fazem sempre antes de fugir e atirar umas pedras.
-Bruxa! Bruxa..
Fogem a toda a brida quando abro a porta e vão gritando:
-Fujam que vem aí a bruxa…
.
As pancadas na porta repetiram-se
Mas não parecia ser mais do que uma pessoa.
Talvez alguém a querer encomendar algum remédio para os achaques, pensou.
Abriu a porta e olhou para baixo.
Uma criança olhava-a com os seus olhos de menina, muito grandes, directamente ao fundo da alma daquela mulher solitária e magoada.
Olharam-se em silêncio.
Depois, a mulher mudou a figuração do rosto, abaixou-se e num sorriso doce perguntou-
- O que precisas, menina.
Foi quando a criança irrompeu num pranto.
- A minha mãe…O senhor padre já lhe deu a extrema unção..
- Mas o que é que ela tem?
A criança lá explicou e com mais umas perguntas a mulher retirou-se voltando passados alguns minutos com um pequeno volume e um frasco.
- Toma atenção: isto é muito forte: dá já uma colher de sopa deste frasco e obriga-a a beber do chá que fizerem com esta mistura de ervas. Pode até não conseguir beber por estar muito fraca, mas com uma colher dêem-lhe a pouco e pouco até perfazer o volume de uma caneca.
De hora a hora tem de tomar uma caneca deste chá, e de duas em duas horas no primeiro dia uma colher do remédio do frasco.
Depois, se ela melhorar, vão dando três colheres por dia até acabar o frasco.
Depois, traz o frasco de volta por favor.
-
Mais de uma semana tinha já passado e seria já perto da meia noite quando acordou com fortes ruídos no exterior.
Vozes de homem, uma ou outra de mulher.
Vestiu-se à pressa e abrindo o postigo da porta olhou meio ensonada, enfrentando o que era já uma gritaria.
.
À frente de uma pequena multidão, o padre vociferava:
- É esta a filha do Demo! A que se atreve a interferir na obra de Deus.
- Mas o que é que fiz? Atreveu-se a mulher?
- Ainda perguntas, infame herege? Tiraste uma alma ao Senhor, fazendo-a perder-se para sempre nas fogueiras do Inferno!
Aquela alma que os braços do Senhor já acolhiam no seu seio foi arrancada pela força de uma poção do Demo!
E dizendo isto mostrou o frasco vazio que a criança tinha levado uma semana antes.
-Bruxa! Bruxa! Bruxa! Gritava agora a multidão.
- Queimem a bruxa. Disse o padre enquanto abria o missal que depois segurou com uma só mão enquanto com a outra fazia o sinal da cruz, proferindo umas palavras que ninguém já ouvia.
- Queimemos a bruxa! Queimemos a bruxa!
E dizendo isto começaram a atirar os archotes para cima da coberta da casa.
Outros aproximaram-se do casebre despejando líquidos para cima dos troncos de madeira que faziam de parede exterior.
À pressa a mulher fechou o postigo, cerrou as trancas da porta e retirou-se para o quarto.
Descobriu a cabeça e mirou-se ao espelho ajeitando os longos cabelos.
Calmamente retirou um pequeno frasco que guardava numa gaveta da mesa e engoliu o conteúdo de uma só vez.
Afastou as abas da vestimenta, deixou cair toda a roupa e mirou o seu corpo desnudo enquanto as chamas já irrompiam pelas tábuas do quarto.
Fechou os olhos e sorriu sentindo todo o seu corpo sucumbir.
Estava feliz, num doce crescendo de flutuação etérea.
Finalmente iria ter com o seu amado...

Charlie
(Carlos Luanda)


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

...Sim!... Duplo, se faz favor...-

Por Charlie

 


Gostava de olhar a forma como ela distraidamente puxava a alça do vestido, primeiro com o dedo indicador, fazendo depois deslizar o polegar junto à pele. Docemente até ao interior de encontro ao rebordo do soutien, repetia o gesto devagar para depois olhar para o lado enquanto a mão de forma instintiva ajeitava o cabelo junto à orelha
O meu copo, onde umas pedras de gelo estalavam sob uma nova dose de bebida acabada de servir, pareceu-me de repente a fronteira dum intruso escondido algures por debaixo da pequena mesa desde onde espreitaria, impune através do vidro, seguro da sua invisibilidade.
- Sabes?...- disse-lhe. –Há quanto tempo desejava estes momentos. Poder sair contigo e apresentar-me ao mundo ao teu lado. Sem receios de sermos vistos e denunciados. Poder dizer: amamo-nos! Aqui estamos! Vejam, olhem para nós!... -
Um silêncio sobreveio.
- Não estás feliz? - Perguntei-lhe com um sorriso no rosto perante o silêncio que obtivera como resposta. Bebi um pouco enquanto olhava para ela que me evitava o olhar. O meu a percorrer aqueles traços de corpo que por melhor que me parecia conhecer, mais e mais me faziam despertar para a eterna descoberta.
Pela primeira vez em muito tempo, contudo, voltei a ser tomado por aquela sensação que desde que a conhecera se esfumara do meu léxico emocional.
Fiquei olhando longamente para ela, molhando os lábios, lendo as linhas do seu desconforto.
Já dobrado o cabo dos cinquenta, conhecia por demais as pessoas para me iludir fosse com o que fosse. Por muito que estivesse enebriado por ter na minha vida aquela mulher que conhecera sem saber como, - ela à beira do divórcio, - numa relação secreta sempre em crescendo que terminara com o meu casamento de décadas, o seu desviar do olhar despertou-me um incontornável sinal de alarme:
- O que se passa? Podes dizer-me?-
Pôs-me as mãos nas minhas que senti ligeiramente frias e húmidas.
- Sabes...estou para dizer-te isto há já algum tempo.
- Mas o que se passa? – adiantei, quase com um nó na garganta,
- Conheci-te, - disse ela,- numa circunstância tão especial, estava tão carente de afectos, de tal forma náufraga e necessitada duma tábua de salvação... Tu foste tudo isso para mim. Foi contigo que me reencontrei, que reabri os horizontes, que me senti novamente na senda do meu destino. Mas agora...
- Agora...!?- atalhei quase num grito a custo dominado, - Agora o quê?..., - as palavras de voz já mais contida, pesasse embora o embargo e a dificuldade em engolir.
Segurou as duas mãos de dedos unidos em frente aos olhos fechados como se repentinamente estivesse em oração. Depois baixando os braços, fixou o meu olhar e continuou:
- Sei o que te vai custar isto, mas tenho que dizer-te: não quero viver novamente num engano, nem enganar-te. A minha vida era uma prisão. Tu foste muito importante, mas apenas porque eu estava carente, com falta de autoestima, desesperada, sei lá... Mas agora... agora que volto a sentir pela primeira vez em tantos anos a leveza da liberdade... Não quero mais prisões, entendes? Antes que seja mais tarde...que doa mais, a ti e a mim...Desculpa-me se um dia puderes...-
Levantou-se e, sem mais uma palavra, retirou-se.
Fiquei olhando para o seu corpo que se afastava enquanto ajeitava as alças que horas antes eu ajudara a saltar sobre os ombros, primeiro um e depois o outro. Como tantas vezes fizera, ela em frente ao espelho, eu por trás, mestre quase invisível que lhe inventava o corpo em gestos de magia, que já nu se fundia na nudez do meu num abraço intenso a derramar-se sobre a cama onde naufragávamos, como tantas vezes fizéramos, em lábios e corpos fluindo no mar comum que era o nosso...
Bebi o copo todo de uma vez, detendo as pedras de gelo num encontro frio junto à boca enquanto os olhos fechados não conseguiram conter o calor e sal dumas patéticas lágrimas.
Pousei o copo e levantei o braço: - Faça favor, - disse quase surdamente perante o assentimento expresso no olhar e aceno de cabeça do barman.
– Traga outro...
Sim!...Duplo, se faz favor... -


sábado, 7 de janeiro de 2012

O Julgamento




Com um finar de martelo culminou a sentença que em voz monocórdica e olhando para ele como se fosse transparente, ditara. As últimas frases, mais: os últimos parágrafos, haviam-lhe soado em surdina, de tal forma o desfecho previsível e desfavorável se ia compondo como resultado do julgamento onde todas as testemunhas, uma após outra, tinham colaborado para o desmontar do seu argumento de defesa. Um leve burburinho elevou-se discretamente na sala enquanto os papeis se guardavam nas pastas e vozes imperceptíveis se trocavam entre os agentes de justiça.
Rodando o corpo para trás, de forma a ficar bem de frente para cada uma delas, fitou as testemunhas, uma após outra. Em vão procurou os seus olhares que preventivamente se distraiam pela sala, chão, tecto, adereços e outros olhares, evitando de forma ostensiva o seu.
Agora que o momento passara, distendendo a tensão com alívio para uns, mas com a morte na alma para ele, via nitidamente em cada um dos rostos a personificação dos sete pecados capitais.
A gula pensou ele, ao olhar para um dos que sabendo a verdade, tinham alterado os factos de forma a comprometê-lo. Fácil de comprar, pensou: bastaria uma boa jantarada ou duas ou uma saída à noite. Depois olhou para o outro, por sinal ainda aparentado. Magro, de óculos finos e fato austero era a imagem da avareza. Este teria sido quiçá o mais fácil de comprar. Uma leve sugestão de despesa extra se o caso tivesse tido um desfecho a seu favor, acrescentado talvez de alguma vantagem se fosse condenado.
Depois olhou para ela, a invejosa. Desde criança que fora assim. Essa também não seria difícil de convencer, estava convencida à partida. Desde eu ficasse mal, mesmo que ela não beneficiasse coisa alguma.
Passou depois o olhar para outra. A ira: uma pessoa má. Não tinha amigos, de tal forma era rancoroso, incapaz de perdoar a mínima falha alheia. Sempre disposto a desenterrar antigos diferendos, mesmo que estes não tivessem qualquer importância ou que esta se tivesse esgotado pelo passar do tempo. Sim! Com este teria sido também muito fácil pois nos encontros e rodas de amigos há já muito acontecidos, ele levara-o a melhor nos argumentos, coisa que o aborrecera profundamente e tinha levado a afastar-se.
A seguinte era a soberba em pessoa. Pensou um pouco mais demorado como teria sido possível comprar aquela testemunha, convence-la a dizer algo que sabia não ter acontecido, mas depois fez-se lhe luz. Também aqui a palavra aplicada no registo certo teria espoletado a característica-chave da sua personalidade. Algo do tipo: - ele anda a denegrir o teu trabalho, diz isto ou aquilo-... Sendo artista e extrovertido e não cabendo em si pela falta de humildade, uma frase teria bastado, o resto seria questão de cozinhado.
De propósito saltou o sexto pecado, guardando-o para o fim, enquanto se deteve no elemento que personificava a preguiça. Detestava-o e dissera-lhe isso mesmo por mais de uma vez. Incapaz de dar uma ajuda a alguém, ficava a olhar, aparentemente alheio, sempre que alguma colaboração lhe era pedida. Mesmo se alguém estivesse aflito a precisar de uma mão, jamais se disponibilizara a dar uma ajuda. Ele sabia que  nunca poderia ter estado naquele sítio, pois vira-o entrar para casa dela, cruzara-se com todos eles, os anteriores, quando tinha ido ter com ela, essa que de propósito guardara para o fim: a luxúria. Meu Deus! Como ela era fogo na cama. De todas as vezes que subira aquelas escadas, ele, agora condenado,cumprimentara-o, ao preguiçoso, com uma tirada jocosa, ao que ele ruminara algo vago do tipo:-vai-te lixar….-, mas ela…ela. Meu Deus! repetiu de novo dizendo-o inconscientemente em voz alta. Veio-lhe à memória como se fosse um só momento, todos os instantes, desde o abrir da porta, dos lábios sôfregos e mãos infinitas e dos seus corpos a explodir e morrer um no outro, e ainda, a efervescente forma de como se tinham conhecido…mas agora...?
Condenado a vinte e cinco anos, a indemnizar com a incontornável perda de bens por falta de recursos suficientes, ia perder, além de todos os meios de fortuna, toda a vida social e profissional. Os amigos, até mesmo os mais verdadeiros, iriam um após outro rareando as visitas até ficar completamente entregue a si mesmo, à sua revolta e solidão. A família, pouca e distante fora a primeira a afastar-se.
Mas porquê?, interrogava-se uma e outra vez…
Um coração acelerado e alimentado pela angústia e revolta surda não lhe davam outra resposta que não as gotas de suor frio que lhe humedeciam a testa.
Naquele momento, em que todo o céu desabara sobre si, confuso e demasiado próximo dos acontecimentos, não conseguia descortinar uma razão válida ou um motivo por mais leve que fosse para que tivesse sido condenado por um crime que não cometera. Sem dúvida que algumas implicações circunstanciais o poderiam ter indiciado, mas bastaria a palavra honesta das testemunhas para que ficasse de forma cabal inocentado. No entanto…
Fechou os olhos, e por uns momentos reviveu o fogo da paixão dessa cujo testemunho fora determinante para a sua condenação. Luxúria, luxúria!!! Paixão... e depois... Deu-se conta como passava da sensação de agrado para a desolação e a raiva impotente e como o suor lhe empapava desconfortavelmente as axilas e lhe escorria pelo couro cabeludo até ao colarinho, e como mais abaixo uma impressão de molhado denunciava as virilhas invadindo igualmente as roupas íntimas pelo fluido orgânico.
Um abanar do corpo fe-lo querer abrir os olhos, em natural reacção, mas surpreendentemente reparou como não conseguia. Seriam os funcionários da presidiária talvez, diligentes em dar corpo à decisão judicial, mas a luz apagara-se, sentia-se ainda mais confuso e debalde tentara dizer uma simples palavra.
-Acorde! Ouviu ele distante enquanto esperava que os guardas o levassem para o cumprimento da pena. Apenas um -“Ãah? “- atordoado saiu-lhe como vaga resposta.
-Acorde, está na hora de tomar os medicamentos. Esteve toda a noite com febre alta e pesadelos. …..- ouviu ele agora já de olhos abertos para aquela voz feminina, que momentos antes estivera sem a farda de enfermeira a incendiar-lhe os sonhos....
- Fartou-se de falar, senhor dr Juiz....

terça-feira, 24 de maio de 2011

Zabiba


ZABIBA
uva passa










Zabiba trouxe o cântaro cheio de água para a tenda.
A distância entre a nascente e o acampamento era de pouco mais de cem metros, que ela fez com algum esforço.
Embora o parco vento soprasse ainda com apontamentos da frescura da noite, o sol acabado de nascer com menos de uma hora de reinado, mostrava já a inclemência da sua realeza.
Zabiba jamais havia visto mais que poços e nascentes.
Agora com doze anos e aproximando-se a idade em que se tornaria mulher perguntou à mãe:
- É verdade, mãe que há sítios onde a água é tanta que forma extensões assim grandes como este Sahara que Allah quis que fosse a nossa casa?-
A mãe olhou para ela com um olhar mortiço e cansado de anos a fio de heróica resistência ao deserto.
O pensamento levou-a para longe. Enquanto preparava o chá, que é um ritual de horas nos povos do deserto, - a primeira chávena bebida amarga como a vida, a segunda quente como o amor e a última, doce como a morte, - deambulou pelos tempos idos. Vieram-lhe à memória os dias em que conhecera o seu marido. Ela fora a sua primeira esposa. E após dois anos do que lhe pareceram ser de felicidade, um parto difícil seguido da morte da criança tinha-lhe trazido uma esterilidade quase absoluta. O marido tinha arranjado mais duas esposas, habilmente negociadas em trocas de ovelhas e camelos. Devido à sua esterilidade o marido procurava-a com muito menos frequência. Mas quisera Allah dar-lhe a graça duma filha quando não esperava já nada da vida.
- Zabiba !- Pôs-lhe o pai de imediato como metáfora ao milagre do fruto nascido duma mãe seca.
A água já estava a ferver mas Zulmira estava tão absorvida em pensamentos que não deu por isso.

Zabiba chamou a mãe.

- Mãe, tens de passar a água. Já está a ferver...e diz-me....-
- Ghaniyah! - disse a mãe despertando do sonho. E Zabiba deu meia volta dançando sobre si mesma. E rindo-se abaixou-se outra vez e disse.
- Já dancei. Agora diz-me se é verdade...-
Zulmira olhou para a filha. Nunca havia visto mais água do que a que se pode observar nos tempo das chuvas, mas o seu homem já estivera em Timbuktu, onde passa o rio Niger. Em pleno deserto há milénios que existe uma cidade que chegou a ser considerada lendária pelos próprios povos do deserto. Ela também nunca havia visto mais água do que aquela que escorre efemeramente pelos Wadis nas alturas em que chove e isso já havia sido há muito ainda Zabiba era pequena.

- Sim - disse .- Há um sítio onde a água é abundante como a areia que nos envolve. Toda a água da chuva corre para o paraíso. Lá há plantas de todos os tipos, muito maiores que as ervas e arbustos que as nossas ovelhas comem. Do tamanho das palmeiras nos oásis mas muito diferentes delas e muito verdes. É onde vive Allah e as pessoas em seu louvor fizeram arranjos com as plantas e construíram jardins. A água é tanta que as pessoas atiram-se para dentro dela lavando a alma e purificando o corpo.
A frescura está sempre presente e os homens amam as mulheres.....-

Calou-se de repente enquanto o seu olhar se perdia novamente no esfumar dos sonhos.
Depois repetiu só para si;

-.....Onde os homens amam as mulheres...-


Foto:C. Deo



Charlie

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Ata.


Texto decifrado entre as nervuras das rochas nas cavernas da invenção da memória


Ata olhou uma vez mais para o vulto que a noite absorvia, com uma quase sofreguidão, à medida que ele se afastava, caminhando um pouco destacado do grupo de homens.
Na caverna, de repente tornada enorme, os restantes membros da tribo ajeitavam-se em redor dos restos das fogueiras projectando efémeras e grotescas sombras pelas paredes. Enormes e assustadores espíritos emergindo de impensáveis ancestralidades, eternos e intemporais...

Org voltou-se fitando o olhar de Ata por um breve instante antes de sumir-se na escuridão que uma lua cheia prestes a romper o horizonte ainda não iluminava.
Iam para a caçada. Preparar as armadilhas para onde encaminhavam as peças a
abater em salvas de flechas e machadadas.
Todas as luas eles saíam passando vários dias e noites fora. Regressavam depois com a carne que a seguir elas, as mulheres, tratavam e preparavam nas fogueiras.
Inspirou fundo e olhou mais uma vez para Cuítsh. Era jóvem, tão jovem quanto
ela e por isso ainda não ia ás caçadas.
Org tinha-a trazido para ali trocando-a por outras mulheres da sua própria tribo como de resto era hábito no vale onde ela tinha nascido.
Chegara um dia ao acampamento onde vivera sempre com os pais. Com ele tantas mulheres como dedos tinha numa mão e após longa discussão e entrega de objectos e amuletos de parte a parte, sentiu-se de repente no meio do grupo juntamente com mais quatro
moças que com ela tinham crescido.
Quase de imediato Org pegara-lhe no braço e pelo cabelo rindo-se enquanto em agitação e no meio das lágrimas e gritos ela olhara numa súplica para a sua mãe que lhe acenara sem expressão alguma no rosto. O coração batera-lhe com violência e ao início, durante dias a fio, chorara no fundo da caverna sem comer nem beber nem, ao menos, levantar os olhos de entre os braços onde mergulhara a cabeça.

Org era um homem bastante mais velho. Chegara por ferozes disputas a chefe da
tribo e apresentava o corpo coberto de cicatrizes.
Brusco e dominador, não se lhe conheciam filhos.
Havia experimentado muitas mulheres, mantinha ainda algumas mas nunca alguma
lhe dera descendência.
Agora porém, desta vez, estava exultante.
Ata começara a mudar as formas do seu abdómen, tinha outro cheiro, e Org não
cabia em si de contente.
Nas últimas luas tinha aumentado a quantidade de caça trazida.
Presenteava-a com as melhores partes das peças abatidas, saía para trazer-lhe frutos de cheiro e sabores doces e preparara-lhe agora um recanto com peles e penas confortáveis.

Ata suspirou mais uma vez e olhou para Cuítsh, disfarçando um curto sinal por
entre as expressões veladas do rosto...

A lua enchia agora todo o vale a seus pés.
Bem lá ao fundo, por entre ramos da vegetação algo rasteira via-se por uma nesga a entrada da caverna.
Abrigados numa dobra do terreno e deitados ao lado um do outro no que restava dum abraço, Cuítsh e Ata, de corpos gratos e suados, miravam o infinito sob o céu estrelado, enquanto ela de mão sobre o ventre, afagava o Neolítico em suaves passagens de Eternidade e poesia...

Charlie

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Folha do Diário dum Soldado,

No momento em que escrevo estas linhas, corro o risco sério duma punição ou mesmo de ser abatido pelo inimigo. Tenho que estar atento, e escrever é uma coisa que distrai a atenção.
São quatro da manhã e há uma meia hora que entrei neste turno de sentinela.
No entanto, durante toda a noite, não consegui ainda conciliar um só momento de sono.
À minha frente apenas vejo uns olhos azuis que me perseguem por todo o lado. São iguais ao da Marlene, a minha namorada, com quem casei duas semanas antes de ser enviado para a frente e entrar em combate.

Acabei de fazer uma pequena pausa para perscrutar a escuridão que uma lua em quarto minguante por trás dum céu em farrapos de nuvens negras mal consegue iluminar. Pareceu-me ter ouvido um ruído, mas afinal, era apenas um mocho que após ter capturado a presa, passou a rasar o meu capacete rumo à mata na colina à nossa retaguarda.

Esta manhã recebemos ordens para avançar em direcção às trincheiras que agora ocupamos. Durante o avanço tínhamos que tomar um ninho de metralhadoras que estava instalada no topo duma pequena elevação do terreno a partir de onde dominava todo o vale. Uma cobertura de fogo de morteiro abriria o passo ao nosso avanço.
Felizmente conseguimos a nova posição com poucas baixas.
Após a relativamente rápida tomada do ponto, a fustigação das trincheiras adversárias fizeram os restantes bater em retirada, o que facilitou o assalto final às suas posições.
O meu pelotão ficou encarregue de fazer a limpeza do terreno, capturando armamento, neutralizando elementos inimigos, detendo-os com ordens de serem abatidos em caso de resistência.
No ninho, constituído por uma pequena escavação a meia altura, rodeado de sacos de areia e pedras, apenas havia umas caixas de munição espalhadas, duas peças pesadas caídas assim como algumas ligeiras. Num dos lados, estava um corpo despedaçado; um dos morteiros tinha atingido quase em cheio o seu alvo e os sacos estavam parcialmente deslocados e rebentados com o conteúdo espalhado em seu redor.
Reparei contudo como no chão, mole devido à chuva miudinha que caíra na noite anterior, umas pegadas de botas levavam a direcção do bosque na encosta que agora fica por trás das nossas linhas. Segui as marcas no solo e, ainda antes de entrar no arvoredo, umas manchas de sangue num arbusto certificaram-me de que estava ferido. Talvez devido a estilhaços aquando da queda do morteiro que atingira o seu camarada. Ou talvez ainda antes, atingido por um projéctil e na iminência da sorte do combate lhe ser desfavorável, tivessem feito com que ele se retirasse na esperança de atingir um local onde se sentisse em segurança.
Avancei com cautelas, a adrenalina a ferver nas veias, abrigando-me em cada lance.
Foi quando inesperadamente o vi. Quase de caras.
Senti o sangue gelar.
Imóvel e encostado a um tronco, debilitado, estava como que esperando por mim. Nem dera quase por ele, poderia perfeitamente ter-me abatido, mas não...
Por detrás duma expressão assustada, de olhos azuis e cabelo louro com laivos negros tal como os de Marlene, estava o que era ainda um rapazinho. - Certamente um voluntário. - pensei. Apresentava um ar de cansaço e segurava a arma apontada na minha direcção com as duas mãos junto à cintura e a coronha apoiada na árvore onde se encostara. Ordenou-me para largar a minha. Respondi-lhe que estava detido, que as nossas forças tinham tomado as suas posições e que agora era meu prisioneiro.
Umas lágrimas espreitaram-lhe aos olhos, ao mesmo tempo que denunciava na inspiração o tremor que lhe tomava o corpo. Por um momento senti um alívio da pressão quando ele abaixou a metralhadora e o olhar num gesto que me pareceu de rendição.
Avancei e foi então quando se deu o desenlace. Dando-se conta de que me aproximava, levantou novamente a cabeça e voltou a apontar a arma, abrindo muito os olhos enquanto subia os braços para uma posição de ponto de mira e de dedo no gatilho. A boca a abrir-se como ao ponto de gritar algo.


Há ocasiões, como esta que sinto agora, em que tudo faríamos para alterar os rumos dos acontecimentos, invertendo-os até muitas vezes, mas naquele instante de tensão em que um momento tem o tamanho do infinito, mas é em simultâneo o infinitésimo que nos separa a vida da morte, venceu a besta. Toda a subtileza dum pensamento, toda a beleza dum poema, apenas o são se perpetuados no conhecimento contínuo, no estado de consciência, na memória de tudo e de nós mesmos, acrescentados em todos os instantes de estar vivo; sobreviver...


Premi instintivamente o indicador. O estampido soado a um menos dum metro de mim atingiu-o em cheio no peito, fazendo-o encostar-se à árvore pela qual escorregou caindo depois para um dos lados. Corri para ele, confesso que desorientado, surpreendido comigo próprio.
Apoiei lhe a cabeça contra mim enquanto, sem saber porquê, lhe dei um pouco da água do meu cantil que apenas molharam os lábios
Já tinha abatido inimigos, já tinha visto morrer camaradas mesmo ao meu lado, eu próprio apresentava umas cicatrizes de estilhaços, curadas mal e porcamente nas trincheiras à base de penicilina, mas nunca tinha passado um episódio que tivesse mexido tanto comigo.
Vi como ele chorava e chorei também. Numa voz quase sussurrada disse:
- Só não queria ser capturado....Para a semana....Para a semana...vou de licença...Há tanto tempo que não vejo os meus pais,....a minha namorada.....- Falava lentamente com pausas para tentar respirar, o que fazia com pequenos movimentos entrecortados em que apenas um dos lados do corpo se movia.
Calou-se. No seu peito, uma mancha negra e quente alastrava e arrefecia lentamente empapando-lhe o corpo. Senti como a vida lhe escapava a cada instante.
Olhou para mim, os seus olhos azuis cinza iguais aos de Marlene, a quem não vejo há meses, o seu cabelo louro e negro como o dela.
Quase num murmúrio deixou escapar um pedido que apenas entendi pelo gesto de tirar a custo um envelope de dentro do blusão e que me entregou. Morreu em seguida.
Retirei do envelope uma carta dirigida aos pais e à namorada.


....................................- Queridos pais- começava a carta,
- Espero que esteja tudo bem e que esta carta os vá encontrar de boa saúde.
Estou contentíssimo.
Foi antecipado a agenda no nosso batalhão e para a semana vou gozar a licença de quinze dias por que anseio há tanto.
As coisas tem estado difíceis, mas estamos aguentando e em breve iremos receber reforços.
O nosso comandante falou ontem às tropas e disse que as nossas forças estavam a preparar o avanço final, que estávamos a progredir em todas as frentes, que a guerra estava a acabar e que com o empenho de todos, estávamos a sair vitoriosos.

Já lhes disse na carta anterior que o posto onde estou agora é relativamente sossegado e seguro, por isso nada de preocupações.
Eu estou bem graças a Deus, embora cheio de saudades de todos.

Digam à Marlene que não fique em cuidados por não lhe escrever esta semana , pois daqui a dias estaremos juntos se Deus quiser.
Digam-lhe que a amo muito e que anseio por ela
e pelo dia do nosso casamento.

Beijos a todos, e renovadas saudades.

Vosso filho que vos adora

xxxxxxxxxx


Dobrei a carta e voltei a colocá-la no envelope. Um sentimento de sacrilégio tomou-me todos os sentidos, e chorei como há muito o não fazia.
Marlene....
Também se chamava Marlene.
Cumpri as rotinas: certifiquei-me da chapa identificadora que trazia ao pescoço.
Vi-lhe os bolsos de onde retirei uma fotografia da sua Marlene: cabelos e olhos escuros como os meus. Senti o coração parar com o sentimento de miséria que me tomou.
Mas foi ao fazer a operação de segurança da arma que fiquei no estado de destroçado, desgraçado até, em que me encontro agora; o carregador não tinha já munições, a câmara vazia.
A arma...
Estava descarregada...






Charlie